O agronegócio brasileiro, responsável por 25,1% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2025, enfrenta uma combinação de endividamento, crédito caro, custos elevados de produção e riscos climáticos. Os desafios afetam o planejamento das próximas safras e aumentam a preocupação com a capacidade de pagamento dos produtores rurais. A avaliação é do advogado Rafael Veríssimo Siquerolo, mestre em Direito Negocial e professor de cursos de pós-graduação voltados ao Direito do Agronegócio.
Segundo o artigo publicado pelo advogado, a situação financeira de parte dos produtores exige atenção, especialmente diante das dificuldades para acessar recursos, financiar a produção e lidar com as oscilações do mercado.
No primeiro semestre de 2026, a inadimplência na carteira de agronegócio do Banco do Brasil chegou a 6,27%, conforme os dados citados no texto. O cenário reforça a preocupação com o endividamento rural, principalmente entre produtores que enfrentaram perdas de safra, custos elevados e dificuldades de comercialização.
Crédito rural e endividamento
O acesso ao financiamento está entre os principais pontos de atenção para a atividade rural. Juros elevados, margens menores e dívidas acumuladas dificultam a contratação de recursos para custeio, investimentos e comercialização.
O Plano Safra 2027/2028 será o primeiro elaborado integralmente no novo mandato presidencial. A efetividade das medidas, porém, dependerá das condições de financiamento e da capacidade de os recursos chegarem aos produtores em condições compatíveis com sua capacidade de pagamento.
Em situações específicas, como frustração de safra e dificuldades de comercialização, pode haver possibilidade de prorrogação das dívidas rurais, desde que sejam atendidos os requisitos legais. A Súmula 298 do Superior Tribunal de Justiça reconhece que o alongamento de dívida originada de crédito rural, quando preenchidas as condições aplicáveis, constitui direito do devedor.
A formalização dos pedidos com antecedência e a apresentação de documentos que comprovem as dificuldades enfrentadas podem contribuir para a análise das solicitações.
Fertilizantes elevam os custos de produção
O preço dos fertilizantes e a disponibilidade de insumos também afetam o planejamento das lavouras. Tensões internacionais, custos de matérias-primas e condições de financiamento pressionam as despesas dos produtores.
Dados citados no artigo indicam que as entregas de fertilizantes no Brasil caíram 8,8% entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).
Diante do aumento dos custos, alguns produtores avaliam reduzir a adubação ou aproveitar a reserva de nutrientes existente no solo. A decisão, contudo, exige análise técnica para evitar perdas de produtividade e impactos nas safras seguintes.
Seguro rural ainda tem baixa cobertura
A proteção contra perdas climáticas permanece como uma das fragilidades do setor. Segundo os dados reunidos por Siquerolo, menos de 10% da agricultura brasileira conta com algum tipo de seguro, enquanto a área coberta com subvenção pública representa cerca de 3%.
Quando há quebra de safra, os prejuízos podem comprometer não apenas a colheita, mas também o pagamento de financiamentos e a compra de insumos para o ciclo seguinte.
O acesso ao seguro rural e ao Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), conforme as regras de cada modalidade, integra as estratégias para reduzir os riscos. A manutenção de notas fiscais, registros de manejo e documentos técnicos também pode ser importante em caso de solicitação de cobertura.
Exigências ambientais e mercado internacional
As regras comerciais e ambientais internacionais também ganham importância para os produtores brasileiros. O Regulamento Antidesmatamento da União Europeia estabelece exigências de rastreabilidade e comprovação de origem para produtos como soja, café e carne bovina, considerando o desmatamento ocorrido após 31 de dezembro de 2020.
A manutenção da documentação ambiental, a regularidade do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e os registros de origem da produção podem influenciar as negociações com compradores, tradings e frigoríficos.
Mudanças tarifárias e novas exigências comerciais também podem alterar custos e condições de acesso aos mercados externos, exigindo atenção aos contratos de venda e às regras aplicáveis a cada destino.
Armazenagem e logística reduzem a margem
A falta de estruturas de armazenagem pode obrigar produtores a vender a colheita em períodos de maior oferta, quando os preços estão sujeitos a pressão. As limitações das estradas e os gargalos no transporte também elevam os custos de escoamento.
A construção de armazéns próprios, o financiamento de estruturas e a contratação de serviços de armazenagem estão entre as alternativas disponíveis, dependendo da escala de produção e da capacidade financeira de cada propriedade.
Planejamento será decisivo para as próximas safras
Entre os temas que devem permanecer no radar do setor estão o Plano Safra 2027/2028, as políticas para fertilizantes, os subsídios ao diesel, a regulamentação da reforma tributária e as medidas relacionadas à Lei de Bioinsumos.
Além das políticas públicas, o planejamento financeiro e a organização da documentação são apontados como medidas importantes para reduzir a exposição aos riscos. A revisão de contratos, o acompanhamento das condições dos financiamentos e a busca por orientação técnica e jurídica podem ajudar a evitar que dificuldades pontuais comprometam a continuidade da atividade rural.
O desafio para os próximos anos será conciliar a capacidade produtiva do agronegócio brasileiro com condições de financiamento, infraestrutura e mecanismos de proteção que permitam manter a rentabilidade e a segurança econômica das propriedades.
