O Acre se prepara para realizar a quinta edição do QualiCafé, concurso voltado à qualidade do café robusta amazônico, enquanto busca ampliar a estrutura disponível para beneficiar a produção. A secretária de Estado de Agricultura, Temillys Silva, afirmou que a estratégia do governo é investir na capacitação dos cafeicultores e na melhoria da qualidade dos grãos, mas reconheceu que a falta de energia elétrica em algumas localidades e a quantidade insuficiente de secadores dificultam o atendimento aos produtores.
Durante sua participação como convidada da semana do Agro24Cast, Temillys destacou que o concurso, que chegou à quarta edição em 2026, foi criado para incentivar os agricultores a investir em conhecimento e técnicas de produção, em vez de apenas ampliar as áreas plantadas.
“A ideia do QualiCafé é justamente essa: primeiro, você conscientiza o produtor de que ele precisa se preparar, se capacitar. Não é só colocar a muda na terra, não é só cavar um buraco e jogar a muda lá”, afirmou.
Segundo a secretária, o crescimento do interesse pelo café no Acre também exige orientação técnica para que os agricultores compreendam as etapas necessárias para obter bons resultados. Ela observou que alguns produtores decidem entrar na atividade depois de verem os resultados financeiros alcançados por vizinhos, mas ressaltou que o sucesso depende de preparo e conhecimento.
“Tem a difusão por inveja, quando vemos o vizinho ganhando dinheiro com café e decidimos plantar café também. Primeiro, o produtor precisa se qualificar”, declarou.
Parcerias para fortalecer a cafeicultura
A política de incentivo à qualidade envolve parcerias com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e outras instituições.
De acordo com Temillys, a participação desses parceiros permite manter ações de capacitação e incentivo ao longo dos anos, independentemente de mudanças na gestão da secretaria.
“Fizemos um convênio com o Sebrae desde o primeiro ano para ter uma política de continuidade. Não podemos estar atrelados à cabeça do secretário. Precisamos entender que a agricultura do Acre não pode ser uma política de governo, ela precisa ser uma política de Estado”, afirmou.
A secretária citou o café, o cacau, a pecuária e o mel como atividades que precisam de planejamento e investimentos contínuos. Na cafeicultura, a proposta é aproveitar experiências de outras regiões produtoras, como Rondônia, e priorizar a qualidade do produto.
“Fizemos junto com o Sebrae, o Senar, a Embrapa, a Emater e outras instituições, e a imprensa, o trabalho de mostrar que o café já é uma realidade e que precisamos investir em qualidade, não em quantidade. Fomos lá em Rondônia, e a Embrapa de Rondônia nos ajudou muito. Tudo isso é a somatória”, disse.
Falta de energia impede funcionamento de secadora
Apesar dos avanços na organização da cadeia produtiva, a infraestrutura ainda representa um desafio. Temillys relatou que uma secadora de café foi instalada em uma área entre Manoel Urbano e Feijó, mas ainda não pode operar porque a rede elétrica necessária não chegou ao local.
“Instalamos uma secadora de café entre Manoel Urbano e Feijó. Está tudo pronto, só falta energia. A Energisa não está chegando lá com a rede necessária, e isso é um problema em várias regiões”, afirmou.
Segundo a secretária, ela pediu apoio ao deputado estadual Luís Tchê para discutir uma proposta legislativa na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) que possa ajudar a enfrentar as dificuldades de acesso à energia em áreas rurais. A preocupação, explicou, é evitar que os produtores tenham de esperar por muito tempo para conseguir beneficiar a colheita.
Secador atende mais de 7 mil sacas, mas demanda é maior
Outro desafio é ampliar a capacidade de secagem do café. A secretaria dispõe de um secador que é levado às comunidades produtoras para atender os agricultores, mas o equipamento não consegue acompanhar toda a demanda.
“Temos um secador de café que levamos para as comunidades, onde há mais de 7 mil sacas para beneficiar o café, mas não atende à demanda porque é um só”, relatou Temillys.
A secretaria também abriu uma licitação para comprar três secadores, mas, segundo a secretária, a empresa responsável pela fabricação rompeu o contrato e informou que não faria a entrega dos equipamentos.
O episódio dificulta a ampliação da estrutura de beneficiamento justamente em um momento em que o governo busca incentivar a melhoria da qualidade dos grãos. A secagem é uma etapa importante do pós-colheita, pois influencia a conservação do café e as características do produto que chega ao mercado.
Com a preparação da quinta edição do QualiCafé, o governo pretende dar continuidade às ações de capacitação e valorização dos cafés acreanos. Para a secretária, consolidar a atividade depende não apenas de incentivar o plantio, mas também de garantir conhecimento técnico, parcerias institucionais e infraestrutura para que os produtores consigam beneficiar e comercializar a produção com qualidade.