Editorial

O topo

Por Redação ·

Durante três dias, a Universidade Federal do Acre e o Sebrae colocaram em debate o tema da Bioeconomia com a realização da quarta edição do Inova Amazônia Summit. À exceção do anglicismo dispensável e de gosto duvidoso no nome do evento, discutir sobre os conceitos de “inovação” e de “produção em bases ambientalmente sustentáveis” é algo urgente.

O nome do evento traz, em si, uma inverdade e um conceito polêmico porque não consensual. A inverdade reside na porção inglesa do nome. “Summit”, em uma tradução de padaria, remonta à ideia de auge, de topo, de elite. Sugere que as pessoas, instituições e empresas ali reunidas fazem parte de um grupo seleto, que estão prontas a apresentar produtos e debater tendências de inovação ligadas à bioeconomia em alto nível. Evidentemente, não é essa a realidade.

As falas institucionais transitaram em uma superfície típica de eventos midiáticos, que, na essência, não dedicam muito tempo e energia para aprofundar o debate. Por exemplo: caso ousassem debater, com fundamento e método, sobre bioeconomia, não precisariam procurar muito para encontrar, ali mesmo no dispositivo de honra, vorazes críticos do desenvolvimento em bases ambientalmente sustentáveis.

Sobre a ideia de Inovação, eis aí um conceito de mil facetas. Entre os cerca de 90 empreendimentos que se apresentaram no evento, quantos efetivamente traziam alguma proposta “inovadora”? A resposta é: “Depende”. Respeitando o trabalho de cada empresa presente e o esforço e o investimento que fizeram para estarem ali, é preciso estabelecer um recorte, uma referência sobre o que, de fato, a Ufac e o Sebrae propõem que seja viabilizado como “inovador” a partir do evento.

É evidente que em se tratando de duas instituições tão importantes e com história de comprometimento com o crescimento socioeconômico da região, é de se esperar que não entendam “inovação” o oferecimento de realidades virtuais em óculos de madeira com a inscrição “Google” gravada; onças e capivaras feitas por IA e exibidas em alta definição em tela de led ou a realização de rodadas de negócios para comercialização de castanhas e açaí. São, sem dúvidas, coisas importantes, mas de inovadoras nada têm.

Na lista de maior número de patentes concedidas em relação ao PIB, uma listagem feita com base nas concessões oficiais do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o Amazonas é o melhor classificado na Amazônia Legal: está no 19° lugar. O Acre está em 23° lugar. Aliás, a região não alcança nem trezentas patentes registradas. Reflete bem como a ideia de “inovação” merece debates mais consequentes por aqui.

Observe-se o seguinte ciclo: uma indústria, quando lança um produto novo no mercado, um longo processo se consolidou. É preciso lembrar que uma nova forma de produzir foi efetivada (um método novo foi criado); houve a abertura de um novo mercado que conheceu, aceitou e demandou aquele produto. A elaboração desse produto exigiu uma ou mais fontes de matérias primas (insumos). A somatória de todos esses fatores gera como consequência uma nova organização industrial. Isso pode ser tão impactante que pressione a criação de ciclos de crescimento.

O reitor da Ufac, Josimar Batista, ofereceu um bom mote. Falou da possibilidade de criação de uma Escola de Farmácia/Bioquímica na Universidade Federal do Acre até 2028. Se isso vai conseguir obedecer a todo o ciclo apresentado no parágrafo anterior, ninguém sabe. Mas é um projeto que se instala em uma região muito especial da Amazônia: em algumas áreas do Acre, há lugares com a maior biodiversidade do planeta. Como isso pode ser inovador para a Ciência e para a Indústria é uma construção social que está sob a responsabilidade de todos. É preciso oferecer um cenário de debate à altura desse desafio. Há muito trabalho até se chegar ao topo.

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