Editorial

Em quê a decisão de Trump de importar mais carne impacta o Acre?

O Mapa precisa entender que aqui é produzida a melhor carne de boi do país

Por Redação · · Atualizado em
Acre também já demonstrou interesse em exportar carne bovina para o Vietnã. Aguarda habilitação por parte do governo vietnamita. (Foto: Sérgio Vale)

Para o setor pecuário, a semana que passou trouxe uma novidade que reanimou a esperança de muitos produtores de carne do Brasil. Grandes produtores, sobretudo. A decisão do presidente norte-americano, Donald Trump, de adicionar 300 mil toneladas de carne à cota de importação foi impactante. Mexeu com os ânimos tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos. Não é para menos: com a tarifa de importação atual em 26,4%, a taxa, na prática será de US$ 44 por tonelada. Quem não tem cota delimitada especificamente será beneficiado pela nova medida do governo norte-americano.

Por lá, o tom foi de crítica ao presidente Trump. “Não se coloca a América em primeiro lugar colocando os produtores de gado dos EUA em último. Essa medida enfraquecerá nossos mercados”, afirmou o presidente da Associação de Pecuaristas dos Estados Unidos, Justin Tupper, de acordo com declaração registrada pela revista Exame, especializada em Economia & Negócios.

Qual a lógica do presidente Trump? Pesou o efeito político. O aumento na cota de importação guarda relação com a manutenção do preço da carne no mercado interno. Com os rebanhos norte-americanos em crise, passando por um processo de reformação, há uma oferta restrita de gado. Esse cenário apontava para um aumento no preço da carne por lá. Ou o governo tomava uma decisão, ou o desgaste na imagem do presidente seria iminente. Era questão de tempo.

O líder do “Make America Great Again” não quis pagar para ver a reclamação do consumidor na beira do balcão. O liberalismo norte-americano não aguenta muita pressão por lá. A fala do representante da Associação de Pecuaristas dos Estados Unidos mostra bem isso: essa história de livre-mercado é boa no quintal dos outros.

A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), claro, comemorou. Mas o que isso tem a ver com o Acre? Primeiro é preciso dimensionar o tamanho da rede habilitada a exportar para os Estados Unidos. No Brasil, são cerca de 50 frigoríficos habilitados para essa exportação. Desses, 5 estão em Rondônia.

“Como o comércio de carne com a China está praticamente parado em função das medidas de salvaguarda, essa decisão do presidente Trump movimenta o mercado brasileiro”, avaliou o presidente do Sindicato das Indústrias de Frigoríficos e Matadouros do Estado do Acre (Sindicarnes), Murilo Leite.

A expectativa é que projetos de ampliação de novas habilitações para exportação para os Estados Unidos sofram pressão junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

E a expectativa de Leite faz sentido. A exportação de carne bovina do Brasil para os Estados Unidos passou de 8,9 mil toneladas, no primeiro semestre de 2025, para 18,7 mil toneladas no mesmo período de 2026. Transformando esses números em dólares, foi um montante de US$ 67,2 milhões ano passado, para US$ 150,3 milhões, uma variação de 123%, segundo dados da Abrafrigo.

Acre, Maranhão e Pará não têm frigoríficos habilitados para exportar para os Estados Unidos. Caso o Mapa tenha sensibilidade suficiente, perceberá que pode incluir plantas industriais com condições plenas de atender a demanda. Os cortes de dianteiro, usados na fabricação de carne moída e hambúrgueres (ground beef), têm profissionais e estruturas capacitados para dar conta da demanda. Se o Mapa vier verificar, as portas, tanto dos frigoríficos quanto das porteiras das propriedades, estarão à disposição. O Mapa precisa entender que aqui é feita a melhor carne de boi do país. Parece ainda não saber disso.

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