Quem acompanha o ac24agro tem percebido como está a discussão em torno do modo de vida na Reserva Extrativista Chico Mendes. A semana que passou foi intensa, aliás. Primeiro os moradores discutiram entre si, em uma plenária realizada em Brasiléia. Depois, partiram para discussões durante três dias na reunião do Conselho Gestor da Resex. Este último encontro é mediado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade).
A plenária dos moradores apontou exatamente o quê? Em síntese, foram três pontos: eles querem a suspensão do Plano de Adequação “imposto pelo ICMBio”; eles querem que o cadastro dos moradores só aconteça após a mudança no plano de utilização; e, finalmente, querem a subjetiva “Defesa dos Direitos das Famílias, pequenos agricultores e produtores rurais da reserva”.
É bem verdade que a realização das reuniões do Conselho Gestor não é nenhum favor. O ICMBio obedece ao que exige a legislação. Democraticamente, os debates precisam ser feitos. No entanto, não é porque o debate é democrático que o órgão público, obrigatoriamente, tem que referendar tudo o que a maioria quer o tempo inteiro, seja para qual rumo for. É preciso dar uma refinada nessa ideia de “democracia”.
Essa proposta de mudança no Plano de Uso da Resex serve de exemplo. Não é porque se fez uma plenária e se levou os pontos de reivindicação à Reunião do Conselho Gestor que o ICMBio deve acatar automaticamente o que a maioria deseja agora. Não é assim que funciona. Se o rito fosse esse, nem precisaria de Conselho Gestor. Este espaço editorial arriscaria dizer que a revisão do Plano de Uso não deve acontecer. E, caso tenha um movimento que aponte para alguma reforma, não será nos moldes que os moradores desejam integralmente.
Este editorial ressalta que a Reserva Extrativista Chico Mendes é um exemplo de como a trágica sina humana de estar vulnerável ao erro abarca a todos, sejam extrativistas, sejam ruralistas, sejam ambientalistas. A Resex é uma síntese de acertos e erros. Repare o leitor no seguinte relato, captado em um áudio em grupo de WhatsApp dos moradores da resex. A fala é de um homem que deve ter idade entre 55 e 60 anos.
“Nós cheguemo (sic) ali em 80 no Montenegro. Eu me lembro de tudo. Quando o pai chegava da mata, ele dava o recado e já tirava pra frente (sic)… Quando marcava o dia, amanhecia o dia… era a companheirada, a seringueirada, e fazia farofa…! Naquele tempo matava muita caça, né? Fritava aquele monte de carne, todo mundo comia. Quando o dia ia querendo amanhecer, saía todo mundo (…) Eu me lembro como que seje hoje (sic). Ele dizia: ‘Minha véia, reze por mim! Nós sabe que nós vai, mas não sabe se nós volta! O negócio é enfrentar polícia, jagunço, tudo o que vier pela frente’ (sic) ”.
Essa é a imagem que os olhos do menino da época preservaram. Esse era o ritual dos extrativistas que se preparavam para realizar os famosos Empates, mobilizações de trabalhadores extrativistas para empatar, dificultar, impedir a derrubada da floresta por parte dos “paulistas”, que investiam na ampliação da pastagem para consolidar a atividade pecuária na região. O grande líder dos trabalhadores à época era Wilson Pinheiro.
“Mas graças a Deus deu certo! Eu tô com dois dias, três dias se reunia todo mundo de novo… [iam] pra delegacia, né? Todo mundo ia direto para o sindicato; do sindicato iam para a delegacia… aí tinha os padres, né?… da Igreja Católica, os advogados do sindicato… aí marcaram audiência, aí tinha ato público… Graças a Deus deu certo. Ganhamos a terra, mas quando é agora, vem o próprio governo sendo o nosso inimigo. É difícil. Depois que a gente ganhou tudo… o governo era contra a gente, os puliça e tudo (sic)… e agora vem a polícia com o ICMBio, Batalhão de Choque, Polícia Ambiental, governo massacrando a gente, né?”
É uma fala muito representativa. O menino que viu o pai lutar para não derrubarem a floresta, para preservar o meio de vida dos extrativistas; que viu o pai se reunir com os amigos para impedir o avanço da atividade pecuária na região é o homem que hoje se sente perseguido pelo Governo, que busca limitar o avanço da pecuarização na reserva extrativista.
É uma inversão de valores rara. Demonstra falhas em várias frentes. Do menino que via a mãe chorar pela saída do pai integrante dos Empates, ao homem que se sente perseguido hoje porque o Governo não o deixa criar bois como ele gostaria, há muitas omissões, ausências e erros. O movimento ambientalista alegrou-se com a criação da resex como um modelo inovador de ocupação agrária na Amazônia. Mas não atentou que o capital não vacila: entranha-se aos poucos. Quando o sujeito menos espera, está completamente envolvido, feito o encanto de jibóia.
