Editorial

O Acre precisa de uma “Operação Ganatum”

Por Redação · · Atualizado em
Rastreabilidade é um dos focos dos Termos de Ajustamento de Conduta. Foto: Arquivo)

A data 8 de abril de 2026 deveria chamar mais atenção do Acre. Sobretudo de quem trabalha com o comércio de gado por aqui. Foi nesta data que o Ministério Público do Estado de Rondônia, em ação conjunta com a Procuradoria Geral do Estado; com a Secretaria de Estado de Finanças e com a Polícia Civil de Rondônia e Mato Grosso deflagraram a Operação Ganatum. O alvo era o combate às fraudes tributárias a partir da simulação de venda de gado.

O esquema envolvia produtores de Rondônia e de Mato Grosso. Nesta ação específica, o radar das investigações apontou um prejuízo aos cofres públicos rondonienses da ordem de R$ 7 milhões, mas a ciranda toda fez movimentar mais de R$ 44 milhões. Algo em torno de 30 mil bovinos foram negociados com sonegação de impostos.

Em Rondônia, o escândalo exposto pela Operação Ganatum foi resultado efetivo de um grupo denominado Cira (Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativo). Teoricamente, são as forças de Segurança e instituições de fiscalização e controle atuando no combate à corrupção. Aqui no Acre, há pouco tempo, a Polícia Civil criou uma unidade de combate à corrupção. Não se tem muitas notícias desse segmento por aqui.

E os números que o Acre apresenta levantariam as orelhas até mesmo do estagiário recém chegada à delegacia. O ac24agro fez as contas dos sete boletins divulgados em 2026 pela Federação da Agricultura e Pecuária do Acre (Faeac). Os números estão lá. Até o momento, entre janeiro e julho, saíram do Acre 218.488 bovinos vivos. É a federação quem está informando. Não é o jornalista que está inventando.

Separando mês a mês o dado relacionado às transferências de gado por tipo de proprietário, é possível chegar ao seguinte número: 129.979 bovinos foram transferidos do Acre para outros estados sob o carimbo de “mesmo proprietário”. Isso equivale a, aproximadamente, 59,5%. Arredondando, são quase 60%. A isenção de impostos para transferências para “mesmo proprietário” tem amparo legal.

No Acre, o problema é que não há quem possa dar segurança de que todo esse gado foi transferido obedecendo a todas as regras. Repare o leitor que são quase 100 mil cabeças a mais do que foi detectado na Operação Ganatum, em Rondônia. Desses 129.979 bovinos vivos que saíram do Acre sem que o atravessador pagasse um centavo de imposto tudo foi dentro da lei?

Observadores do mercado do boi garantem que não. E oferecem até o roteiro: o sujeito compra uma área de terra pequena aqui no Acre (alguns chegam a arrendar). Na sequência, abre-se uma inscrição estadual na Sefaz. Depois, inicia-se o golpe efetivamente: compram gado de terceiros e simulam que estão transferindo gado do Acre para outra propriedade que ele tem (ou diz ter) em outro estado. Desta forma, ele não paga um centavo de imposto.

Não paga nem mesmo o imposto praticado abaixo da pauta. O que, em si, já é algo polêmico e contestável. Mas nem este imposto abaixo da pauta o sujeito paga. O gado é produzido aqui, sai do Acre sem pagar um centavo de imposto e vai ser engordado e abatido em outro estado, gerando renda, empregos e riqueza longe daqui. Se se trata de sonegação ou de elisão fiscal só uma investigação séria é possível distinguir.

Ao ac24agro, não surpreende a postura do pecuarista de base familiar acreano. Mesmo sabendo do esquema, ainda assim vende o gado ao atravessador. É o aperreio da hora. É o pecuarista descapitalizado, vulnerável a tudo e a todos. O que gera alguma indignação são o silêncio e a apatia oficiais. Nem o barulho feito no quintal do vizinho parece ter dado vontade de mudar as coisas por aqui. O Acre precisa de uma Ganatum para chamar de nossa. Teremos?

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