O leitor, que é bicho de boa memória, vai se lembrar que, no dia 7 de julho (terça-feira), o secretário de Estado de Governo, Luiz Calixto, foi pressionado por um grupo grande de produtores agrícolas de base familiar na Assembleia Legislativa do Acre. Na ocasião, o presidente da Casa, deputado estadual Nicolau Júnior (Progressistas) estava presente, assim como a deputada estadual Michelle Melo (PDT) e o deputado Edvaldo Magalhães (PCdoB). As cobranças foram duras.
Como o matuto gosta de falar, os representantes do Governo do Acre “se viram nas amarelas” naquela ocasião. Motivados pelo compartilhamento de um áudio do diretor de Ramais do Deracre e em meio ao contexto de crise entre a antiga diretoria do departamento e o Gabinete Civil, os agricultores perceberam que aquela seria a hora certa de pressionar.
Ficou combinado que dez dias depois, na sede do Deracre, haveria um novo encontro com as providências oficiais: apresentação de um cronograma de obras e intervenções nos ramais. Ficou acertada, inclusive, a possibilidade de a governadora Mailza Assis Camelí estar presente. “Queremos ouvir da boca dela”, foi uma frase repetida entre os agricultores.
Dez dias e muitos descompromissos depois, o dia 17 chegou. Na sede do Deracre, o esvaziamento do auditório foi revelador. Aquela pressão, aquele constrangimento porque passaram os agentes de governo na Aleac dez dias antes, cobrou o preço. É como se o Gabinete Civil estivesse gritando: “Quem manda aqui somos nós!”.
Colocaram o diretor de Desenvolvimento Regional do Deracre, Pedro Valério, para ficar passando o microfone a um e outro ou renovando promessas de um lado a outro. Eram promessas que vinham e eram reclamações que voltavam. Ficou nisto das 9 ao meio dia. Não houve cronograma; não houve data combinada; não houve assinatura de nenhum compromisso.
A Aleac estava representada pela deputada estadual Michelle Melo que, certamente, deve ter passado uma mensagem de WhatsApp ao colega Nicolau Júnior com o informe: “No Deracre, fórum esvaziado” ou qualquer frase com esse espírito. Mas é preciso reconhecer que foi a única parlamentar que estava ao lado do produtor naquele instante. Duas observações são necessárias.
A primeira: a governadora Mailza Assis Camelí deveria se sentir prejudicada com esse tipo de blindagem. Ela precisa ser alertada de que o cenário para o agricultor de base familiar não está bom. Um governante não pode ser iludido e nem deixar-se iludir por manchetes de assessorias oficiais. O quadro é grave, sobretudo em três áreas da gestão rural: Infraestrutura, Educação e Saúde. Qualquer balbucio de assessor ruminando cenários positivos nessa área, a governante deveria passar-lhe uma descompostura. No acreanês: deveria dar um carão!
A segunda observação é triste de ser feita. Mas como o ac24agro não poupa ninguém, lá vai: o trabalhador rural de base familiar está completamente perdido em sua organização. Não há uma liderança que tenha condições de manter o entusiasmo; que mantenha a unidade; que persista; que teime; que inflame em alguns momentos e que acalme em outros. Era preciso ter mantido, no dia 17, a mesma energia demonstrada no dia 7. Trabalhador desorganizado só é bom para o patrão; só é bom para quem detém o capital; só é fundamental para quem detém o poder.
É bom perceber que nem conseguir manter a pressão sob os governos os trabalhadores de base familiar estão conseguindo. Dominar o calendário e o tipo de obras (como já aconteceu em outros momentos) é um sonho distante.
A condução está tão desorientada que o Deracre reagiu anunciando que vai atuar para melhorar 720 quilômetros de ramais na Transacreana. Ora, o entendimento está enviesado. O que os trabalhadores cobraram foi um planejamento para o Estado do Acre inteiro. Não era uma discussão fulanizar para uma determinada comunidade. E o detalhe que não poderia passar despercebido: a Prefeitura de Rio Branco manteve-se estrategicamente em silêncio ao longo de todo esse período. Uma omissão que expõe muita coisa. É um silêncio revelador.