A crise da companhia BMG Foods demorou a chegar em Tarauacá. No setor agropecuário, a notícia mais impactante na semana que passou foi o cenário de insegurança econômica gerada com o possível fechamento da unidade frigorífica. Desde maio, os abates estão suspensos e os cerca de 220, 230 funcionários foram dispensados. Se servir de consolo, os trabalhadores têm recebido salários. Com algum atraso, mas têm recebido. O que é um alento para uma empobrecida cidade de 45 mil habitantes no interior do Acre.
A companhia integra o grupo paraguaio Concepción. Nenhum grupo do segmento no Brasil cresceu tanto quanto o Concepción, desde 2021 (quando entraram na agenda brasileira). Entre 2021 e 2025, o Concepción só gerou notícias boas.
Uma delas foi a retomada das operações em Tarauacá. A unidade tem capacidade de abate de 200 animais por dia. Abatia 150, em média. No Acre, a BMG Foods tem uma bacia de contenção (alguns chamam de “lagoa de resíduos”) só superada pela JBS no Acre. Sete carretas que transportavam a carga para ser desossada em outras regiões fechavam o ciclo de serviços.
Todo esse time mudou, durante um ano (a BMG Foods completou um ano de operações em Tarauacá no último dia 17 de julho), mudou a agenda de muitos produtores de carne na região do vale dos rios Tarauacá e Envira. Balsas riscavam esses dois rios carregando animais que, mesmo no inverno, estavam sendo abatidos. Era uma rotina incomum. O impacto foi positivo, como poucas vezes se viu na região.
A crise no BMG Foods de Tarauacá não surpreendeu ninguém. Nem os agentes públicos e nem os privados. Na verdade, nem mesmo os produtores. Já corriam frouxos os vídeos de protestos de pecuaristas em frente às unidades da companhia em várias partes do país. Foi justamente para evitar o mesmo problema em Tarauacá que a direção da companhia resolveu suspender os abates.
A resposta que foi dada pela assessoria da empresa não diz nada com coisa alguma. O grupo Concepción contratou uma empresa para gerenciar o processo de crise. A recuperação judicial é um instrumento que está sendo avaliado. Ao todo, a cifra divulgada na imprensa nacional é de uma dívida líquida de toda a companhia de US$ 820 milhões.
E é sempre bom lembrar: essa crise não foi gestada por nenhuma ação de Governo. Não foram as fiscalizações federais, nem estaduais e muito menos municipais. Não foi o Ministério da Agricultura, nem os institutos de meio ambiente dos estados (no caso do Acre, o Imac) e muito menos as vigilâncias sanitárias municipais o que causou essa crise. Foram decisões empresariais que resultaram neste cenário.
A expectativa agora gira em torno da seguinte pergunta: quem vai assumir o frigorífico em Tarauacá? É uma pergunta que traz embutida uma apreensão. O Acre tem 4 frigoríficos sifados. Um deles é o BMG Foods. Caso um dos três empresários do Acre resolva assumir o desafio, automaticamente, 50% dos frigoríficos do estado passarão a estar nas mãos de um único grupo. Os problemas decorrentes disso fazem parte de um roteiro que só o tempo será capaz de responder. É bom o produtor se precaver de alguma forma.
