Ellen Selhorst é empresária do setor frigorífico. Administra o Boi Bom, unidade que em maio do ano passado comemorou a conquista do selo SISBI-POA. Com capacidade de abate de 120 animais por dia, a Boi Bom se enquadra no perfil dos “pequenos frigoríficos” e isso faz diferença nesse momento de escassez de carne.
“A gente não pode se dar ao luxo de ter pouco e não abater”, compara Selhorst, fazendo referência à postura dos grandes frigoríficos que podem “pular abate” (ficar um, dois, três dias ou até mais sem abates).
E isso faz com que o frigorífico tenha até um compromisso social com a comunidade. “Eu estando em Acrelândia, sou a única empresa que entrega em Acrelândia. Se eu não conseguir animal para abater, o município inteiro fica desabastecido. Às vezes, eu tenho prejuízo. Nessa época do ano, falta carne até para mandar para Rio Branco”.
A empresária lembra que chega ao ponto de até ter que escolher para quem vender. “Fica extremamente complicado a gente ter que escolher alguns clientes. Porque você entrega para um e não entrega para o outro. A gente tem que fazer algumas escolhas: quem paga melhor, quem tem volume, quem é mais fiel, quem mais antigo, e isso gera um desconforto muito grande”, detalhou Ellen.
A empresária lembra e enaltece o trabalho do Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento do Acre que contratou a mais importante consultoria do mercado agropecuário do país, a Scot Consultoria. Os números apresentados pela Scot Consultoria esta semana aos empresários locais apresentam o seguinte perfil: 5% da carne produzida no Acre é exportada (para outros países); 21% é comercializada para outros estados do Brasil e o restante, cerca de 74% é consumido internamente no Acre. Isso confere um consumo per capita de mais de 30 Kg de carne por ano. Isso mostra o impacto da cadeia produtiva da carne no Acre.
“Não adianta ter um rebanho em quantidade se eles não estão prontos para o abate e a gente, enquanto indústria pequena, não pode se dar ao luxo de ter um ‘mercado melhor’ ou a ‘não ter um mercado melhor’. Nós temos que abater. Nós temos as contas no final do mês. O pecuarista vende hoje um lote maior de gado. Mas se no mês que vem tiver pasto ainda suficiente e não precisar de dinheiro, ele segura um mês, segura dois meses até vender o rebanho. A gente não pode fazer isso. Temos que abater todos os dias, com prejuízo ou sem prejuízo. Porque as contas estão aí”.
Selhorst reforça a parceria com os pecuaristas, mas destaca também essa diferença de características do trabalho de um e de outro setor, ressaltando o tamanho da Boi Bom no mercado local: um frigorífico de porte pequeno.
A empresária lembra do perfil do consumidor acreano e o impacto que isso tem na cadeia produtiva da carne. “Os três frigoríficos grandes que estão operando, sifados, estão exportando, ampliando capacidade. Mas para a gente que entrega no mercado, eu tenho preocupação. Porque a previsão de exportação continua em alta. Então, o pecuarista está vendendo muito bem. Que bom! Mas nós somos um estado muito pobre, com as pessoas tendo pouco dinheiro. Mais da metade recebe Bolsa Família. Se o preço da carne sobe, a nossa venda despenca”.
