O diretor-presidente do Saerb, Enoque Pereira, inicia o segundo semestre gastando sola de sapato e paciência nos corredores de Brasília. Trabalha na articulação para reunir R$ 100 milhões. A justificativa para tanto dinheiro é um projeto que pode livrar Rio Branco do desabastecimento de água potável. Os técnicos da autarquia e da Defesa Civil trabalham com a referência de que se não houver uma interferência de engenharia urgente, a Capital do Acre entrará em colapso hídrico em, no máximo, 10 anos.
“Nós não vamos fazer nenhuma intervenção direta no Rio Acre”, explicou o diretor-presidente. “A ideia é desapropriar uma área para construir seiscentos hectares de lâmina d’água com tanques de oito metros”. O custo de R$ 100 milhões cobre a desapropriação da área, a realização dos estudos de impacto ambiental, a licença ambiental e a construção efetivamente da estrutura.
Quando toda essa estrutura estiver funcionando, o Saerb estima que haverá uma redução nos custos de manejo da água em torno de R$ 10 milhões ao ano. “Com essa unidade em funcionamento, ela se paga em dez anos”, contou Enoque Pereira.
A direção da autarquia avalia que a bacia do Rio Acre é a menor bacia hidrográfica do estado e, no entanto, abastece mais da metade da população local. Essa presença humana tem aumentado a pressão sobre a bacia a cada ano e a cada renovação de ciclo econômico.
Agricultura tem derrubado matas ciliares e contribuído para assoreamento do Rio Acre
Nas diversas expedições que tem feito com representantes da Defesa Civil de Rio Branco e do Ministério Público do Acre, Enoque Pereira tem constatado um problema grave: a destruição de matas ciliares (matas às margens dos rios). Essas matas são protegidas por lei.
“Há alguns trechos com trinta quilômetros ao longo do Rio Acre acima em que a mata ciliar foi toda retirada. Isso aumenta os custos para tratar a água porque aumenta o assoreamento do rio e, por isso, aumenta a turbidez da água”, afirma. “Há épocas do ano que nós, na prática, tratamos lama”.
O diretor-presidente do Saerb diz que nos últimos anos tem havido um “aumento exponencial” da turbidez da água. Ele conta que houve um período do ano passado em que uma das estações de tratamento de água da Capital, em 40 dias, operou durante 22 dias com 1.000 NTU (Unidade Nefelométrica de Turbidez, uma unidade de medida padrão que mede a turbidez da água). A estação de tratamento opera com eficácia com 800 NTU. “Nós já chegamos a operar com quatro mil NTU”, lembra. “Por isso, eu digo que é quase lama e isso aumenta nossos custos”.
O diretor presidente relaciona essa situação do Rio Acre às atividades agrícolas. “A terra arada, sem as matas ciliares, traz como consequência óbvia o assoreamento”, afirmou Pereira.
Bancada federal só destinou 0,545% de emendas parlamentares para Saneamento Básico
O Saerb tem os números detalhados. Entre 2022 e 2026, a bancada federal do Acre destinou apenas 0,545% das emendas parlamentares (incluindo emendas de bancada, das comissões ou individuais). Foram aproximadamente R$ 12,6 milhões. É uma quantidade de recurso que explica o fato de o Acre estar em último lugar no ranking de Saneamento Básico no país.
“Dizem muito esses números, não dizem?”, pergunta, sem disfarçar o incômodo. “Há também uma questão de ordem política, que eu não entro no mérito do debate político, mas há fatores políticos que explicam isso também porque há parlamentares que são a favor da concessão do sistema para a iniciativa privada e precisamos fazer esse debate”.
Coordenador da bancada federal explica as destinações das emendas
O senador Alan Rick (Republicanos/AC) explicou o contexto das destinações das emendas parlamentares e o percentual tão baixo para investimento em Saneamento Básico. Consultado pela reportagem, ele deu a seguinte declaração:
“A destinação das emendas ocorre de acordo com vários fatores. A solicitação do ente (comunidade, Estado, município, instituições, etc.). Cada parlamentar elege suas prioridades seguindo seus critérios técnicos ou políticos. No caso do Saerb eu destinei emenda de R$ 2 milhões para a construção do sistema de abastecimento de água da Vila Verde (Km 58 da Transacreana) e Vila Manoel Marques (Km 14). Esses pedidos eu recebi direto das comunidades em uma das minhas visitas por lá. Sempre procuro ouvir as demandas diretamente nas comunidades”.
Recursos de Emendas Parlamentares recebidos pelo Saerb entre 2022-2026
1. Emenda de bancada (2021) – R$ 9.652.002,00
2. Dep. Federal Eduardo Veloso (2024) – R$ 220.000,00
2. Dep. Federal Gerlen Diniz (2024)- R$ 875.610,00
3. Senador Alan Rick (2024) – R$ 1.920.000,00
Total: R$ 12.667.612,00
O ac24agro seguirá com o tema Saneamento Básico em outra reportagem para tratar do esforço do Saerb em tentar diminuir a inadimplência do sistema.
