Editorial

Lentes

Por Redação ·

O leitor pode estranhar. Por que um site que trata de agricultura, pecuária e extrativismo prioriza os debates em política externa em editorial? O que uma coisa tem a ver com outra? Resposta: tudo. Em função dos últimos movimentos do governo dos Estados Unidos, é possível dizer com segurança: tem tudo a ver. Aos fatos:

Em outubro do ano passado, o governo norte-americano apresentou um acordo político e comercial ao Brasil. O material foi divulgado com exclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo, um jornal que está muito longe de ser classificado como “de esquerda”. Foram propostas 21 concessões ao Brasil. Cada uma mais absurda que a outra.

Havia exigências com relação a garantias à liberdade de expressão e à aplicação de sanções financeiras que poderiam ser determinadas pelo Tesouro norte-americano, em território brasileiro. A imagem do “Brasil como quintal dos Estados Unidos” ganha contornos práticos nas propostas.

Coisas que respeitam à seguinte lógica: se o governo brasileiro necessitasse comprar… aviões, por exemplo, ele deveria comprar da Boeing e não da Embraer; o Pix teria o seu fim decretado; as negociações relacionadas a minerais críticos, pelas propostas, só poderiam acontecer com o referendo do governo norte-americano. Portanto: se o Brasil iniciasse conversas com uma empresa qualquer sobre exploração de terras raras, essas negociações só poderiam ter conclusões com o aval do governo norte-americano. O espírito do que foi proposto é um pouco este.

Se fosse possível colocar em uma sentença o que as 21 concessões ofereciam, seria mais ou menos assim: a partir da aceitação dessa proposta, o governo brasileiro precisa tomar decisões baseadas não nos interesses, nas finanças ou na soberania do Brasil, mas tendo como referencial os interesses e as contas dos Estados Unidos. Se o Brasil aceitasse o que foi proposto, os Estados Unidos poderiam rever os “ajustes” nas tarifas. É evidente que o governo brasileiro rechaçou integralmente a proposta. Isso foi em outubro do ano passado.

Diante da negativa do governo brasileiro em outubro, no dia 9 de janeiro deste ano, o governo Trump apresentou nova investida. Desta vez, foi um documento mais conciso. Envolveu sete setores e 14 tópicos. Mas o “espírito” do que era apresentado foi o mesmo. Novamente, o Itamaraty rejeitou a proposta. Em julho, o governo Trump anunciou novo tarifaço de 37,5% de sobretaxa aos produtos brasileiros comercializados com os Estados Unidos.

Uma nova proposta do governo Trump deve ser apresentada na próxima reunião do G-20, marcada agora para o fim de setembro. Não há expectativa de que mudanças significativas sejam oferecidas. O pleito norte-americano deve ser mantido.

Repare o leitor no teor claramente intervencionista na política brasileira apresentado nas propostas. “Os Estados Unidos cobraram que ‘dissidentes políticos’ no Brasil não fossem detidos, presos ou impedidos, arbitrariamente, de participar da disputa pelo Planalto. Também exigiam que a eleição ocorresse de forma ‘justa e livre’”, revelou o jornal O Estado de S. Paulo.
Ao longo da semana, outro grande jornal, desta vez o jornal Folha de S. Paulo, noticiou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) classificou como alto grau de criticidade a possibilidade de intervenção norte-americana nas eleições brasileiras.

Diante desse quadro, a fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da 81ª edição da Assembleia Geral da ONU foi assertiva. A grande imprensa jamais reconhecerá isso. Mas foi. Quando o presidente Lula diz que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, ele deixa claro a Trump (que acompanhava o discurso em uma das salas ao lado) uma forma de pensar o país. A grande imprensa brasileira minimiza o gesto querendo enquadrá-lo no uso vulgar da ideia de “soberania”. Mas a postura de Lula diz muito mais que isso. Ele também defendeu o processo eleitoral brasileiro e lembrou que no dia 4 de outubro o Brasil vai escolher entre a democracia e o negacionismo.

A classe produtiva brasileira (a acreana em especial) precisa observar toda essa discussão com uma lente um pouco mais refinada. Não se pode olhar o cenário político e as “demandas do setor produtivo” com preocupações imediatas.

O que está em jogo não é apenas o prazo que o gerente do Banco da Amazônia estabeleceu para pagar o financiamento; ou os diretores do Imac e do Ibama que insistem em não rever o embargo da propriedade. Esses são pontos importantes, rotineiros. Precisam ser resolvidos. No entanto, há coisas que podem colocar em xeque muito mais que prazos bancários ou leituras de mapas por satélite. O produtor acreano precisa avaliar com muita calma para não derrubar a própria porteira.

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