Editorial

Capobianco ainda segura uma corda tensa

Por Redação ·
(Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

A notícia mais importante para o setor agropecuário foi apresentada somente na sexta-feira (16): redução do desmatamento na Amazônia (41,8%) e no Cerrado (23,8%). Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) referem-se ao período entre agosto de 2025 e julho de 2026, comparado aos últimos 12 meses.

E isso tem tudo a ver com as atividades do setor agropecuário, tanto para o grande produtor de grãos ou grandes pecuaristas quanto com o agricultor de base familiar. Os números surpreenderam tanto o governo federal que gerou novidades até em declarações oficiais.

“Nós nos acostumamos a, genericamente, culpar o produtor rural e o agronegócio pelo desmatamento. Mas nós estamos mostrando que essa realidade mudou. Mudou muito. De 8,5 milhões [de imóveis rurais], o desmatamento aconteceu em apenas 1,8% dos imóveis rurais. A imensa maioria (sic) dos produtores rurais não desmatou no último ano”, admitiu Capobianco, um tradicional crítico à atividade pecuária.

Não é comum Capobianco fazer uma declaração dessas. Ainda mais em época de campanha presidencial, é possível levantar suspeitas nos ouvidos mais sensíveis em um segmento político tão avesso à atual administração do Palácio do Planalto como é o segmento agropecuário.

O que confere uma certa blindagem às declarações do ministro Capobianco é a camada insuspeita do carimbo do Inpe. “Estamos trazendo resultados concretos para os biomas Amazônia e Cerrado”, disse o ministro.

O contexto apresentado em conjunto com o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, e da ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, foi recebido com ceticismo pelo presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Acre, Assuero Doca Veronez.

“A causa desses números é sim o avanço da tecnologia. Não aquela incorporada pelos produtores, mas sim aquela adotada pelos órgãos ambientais para perseguir, embargar e destruir as propriedades rurais da Amazônia”, ironizou Veronez.

Durante as falas dos três ministros em entrevista coletiva, ficou óbvia a abordagem a ser dada oficialmente: enaltecer os dados como uma ação de governo coordenada. A mais disciplinada nesse aspecto foi Miriam Belchior. “Houve uma coordenação ministerial eficaz para contribuir com esse resultado. Houve cooperação com estados e municípios e participação da sociedade. Foi um jogo de ganha-ganha. Todo mundo trabalhou”, analisou a ministra da Casa Civil.

É evidente que uma redução drástica do desmatamento nesse nível não é possível sem que o produtor não seja incluído com destaque na análise. A adesão às novas tecnologias e técnicas de plantio e criação melhoram a produtividade e diminui a pressão por ampliação de área. Em última instância, é o produtor quem decide.

A declaração de Capobianco fugiu ao tom tradicional. Não se sabe, no entanto, quanto dessa declaração não está contaminada pelo ambiente de campanha em uma tentativa estratégica de distensionar a relação com lideranças de um setor sempre arredio à agenda ambiental. Pelo tom do presidente da Faeac, percebe-se que a corda continua tensa.

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