O homem do áudio no WhatsApp tem razão em se sentir traído. O menino que viu o pai sair de madrugada para os Empates, que ouviu a mãe rezar pela volta dele, cresceu numa floresta que o movimento extrativista defendeu com o corpo. O que ele não viu, porque ninguém mostrou, foi o capital entrando pelos fundos enquanto o Estado saía pela porta da frente.
Entre 2019 e hoje, o afrouxamento ambiental abriu caminho para a venda ilegal de lotes dentro da Resex Chico Mendes. Não foi o morador que inventou esse mercado. Mas foi ele quem ficou com a conta, já que hoje 70% dos moradores estão em situação irregular. A pergunta que o editorial do ac24agro não faz é simples. Quem os colocou aqui?
A Resex existe para garantir que populações extrativistas vivam da floresta sem destruí-la. O Plano de Uso é a lei interna que regula isso e foi construído com os moradores, não contra eles. Como resposta a essa irregularidade em massa, foi criado o Termo de Adequação do Perfil do Beneficiário. Por esse instrumento, quase 600 famílias podem se regularizar dentro da lei. Esse era o centro da última reunião do Conselho Deliberativo.
Mas desde 2024, uma advogada ligada ao agronegócio vem operando sobre essa demanda legítima para empurrar outra coisa. A proposta é usar a revisão do Plano de Uso para legalizar quem comprou ilegalmente, ampliando limites de desmatamento para proteger interesses que nada têm a ver com o extrativismo tradicional. O método é conhecido, pois envolve desinformação, mobilização de moradores irregulares e sabotagem de reuniões. Na última, o Conselho foi impedido de avançar. Quem paga o preço são as quase 600 famílias que só querem se regularizar dentro da lei.
Há uma crueldade específica nesse processo que vale nomear. O morador irregular, em muitos casos, foi ele próprio vítima de quem vendeu o que não podia vender. Agora esse mesmo morador é mobilizado para bloquear o único instrumento que poderia regularizá-lo. Não é defesa de morador. É a captura de uma pauta coletiva a serviço de interesse privado, e são as próprias vítimas que estão sendo usadas como ferramenta.
O filho do empate não traiu os valores do pai. Ele foi abandonado por quem deveria ter garantido que a floresta continuasse sendo o único negócio possível dentro da Resex. Reconhecer isso não significa absolvê-lo de escolhas que precisam ser revistas. Significa recusar a narrativa que transforma a vítima de um processo de captura em protagonista de uma “inversão de valores”.
A floresta e quem depende dela dentro da lei não podem pagar essa conta. E a memória dos Empates merece mais do que ser usada para justificar o avanço do que eles foram feitos para impedir.
*(Ângela Mendes é presidente do Comitê Chico Mendes e filha do líder seringueiro assassinado em 1988)
