El Niño

FGV alerta que Super El Niño pode reduzir produção de grãos em até 10%

Estudo aponta risco para soja, milho, café e laranja caso o fenômeno se intensifique nas próximas semanas; definição deve ocorrer no fim de julho

Por Redação ·

Um eventual El Niño muito forte em 2026 poderá provocar perdas significativas na produção agrícola brasileira, com impacto mais intenso sobre as lavouras de soja, milho, café e laranja. A estimativa é de especialistas da Fundação Getulio Vargas (FGV), que projetam uma redução entre 7% e 10% na produção dessas culturas caso o fenômeno climático se intensifique.

A avaliação foi apresentada nesta terça-feira (7), durante uma mesa redonda promovida pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), em São Paulo. Segundo os pesquisadores, o El Niño segue em fase de monitoramento e a confirmação de um episódio muito forte deverá ocorrer no fim de julho. Atualmente, o fenômeno é classificado como forte.

O professor da FGV e ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente, Eduardo Assad, explicou que um El Niño muito forte eleva a temperatura média dos oceanos em 2°C ou mais, enquanto um evento forte registra aquecimento entre 1°C e 1,5°C. De acordo com ele, os principais efeitos devem começar a ser sentidos a partir de setembro, com enfraquecimento entre janeiro e fevereiro.

Além da elevação das temperaturas, o fenômeno altera o regime de chuvas, provocando distribuição irregular das precipitações e aumentando os riscos para a produção agrícola em diversas regiões do país.

Assad destacou que não existem evidências científicas que relacionem diretamente as mudanças climáticas ao fortalecimento do El Niño, embora tenha observado que eventos extremos vêm ocorrendo com maior frequência. O pesquisador também defendeu o fortalecimento de políticas para redução das emissões de gases de efeito estufa e afirmou que apenas cerca de 2% dos recursos do Plano Safra são destinados a sistemas produtivos voltados à captura de carbono.

Durante o debate, o professor da FGV e ex-secretário do Ministério da Agricultura, Guilherme Bastos, chamou atenção para a necessidade de ampliar a participação de estados e municípios no planejamento de ações preventivas contra eventos climáticos extremos.

Segundo Bastos, grandes produtores rurais possuem maior capacidade de adaptação, enquanto pequenos e médios agricultores permanecem mais vulneráveis aos impactos do clima. Ele defendeu a ampliação do uso de seguros paramétricos e maior participação dos governos estaduais no apoio a produtores que não conseguem acesso ao Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) ou ao seguro rural privado.

Levantamento apresentado pela FGV, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que, em 2020, 72% dos municípios brasileiros não possuíam plano de prevenção a enchentes em seus planos diretores. No caso da prevenção à seca, o índice era ainda maior: 78% das cidades não contavam com estratégias específicas.

Para os especialistas, o cenário reforça a necessidade de ampliar o planejamento climático, fortalecer a gestão de riscos e expandir os mecanismos de proteção financeira aos produtores rurais diante da possibilidade de eventos climáticos cada vez mais severos.

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