O clima tenso no auditório Marina Silva, na Assembleia Legislativa do Acre, entre os produtores rurais de base familiar e o representante do Governo, Luiz Calixto, obedeceu ao que exige a democracia. Com uma diferença: ao representante do Gabinete Civil, quem quis falar falou. Mas todos não ouviram o que se queria ouvir.
O diretor de Ramais do Deracre, Celso Sousa, talvez nem tenha dimensão de como foi importante ele ter vazado o áudio que anunciava a retirada de máquinas dos canteiros de obras nos ramais. Além de expor a insatisfação da direção do Deracre com o próprio Governo, gerou insegurança nos produtores; a insegurança gerou indignação; a indignação foi o combustível para mobilizar, reunir e dizer o que precisava ser dito para o homem mais poderoso do recinto. Luiz Calixto, o ex-deputado estadual, hoje um dos mais fiéis assessores de Mailza Assis Camelí, naquele ambiente, representava o poder constituído.
As falas interrompendo o discurso oficial, o grito cheio de sofrimento e revolta encontraram em Calixto o motivo concreto para espiar a revolta. “Está aqui, diante de mim, aquele que representa boa parte do aperreio que eu vivo!”
É verdade que o áudio do diretor do Deracre expôs um cenário grave. Mostrou que o Governo do Acre não está conversando entre si. Sugere também uma faísca de interesse político partidário: um relance. Mas isso vira um detalhe diante da história de cada um dos agricultores que foram para a Aleac ontem (7).
“Nós queremos saber para onde foi o dinheiro do Deracre” era uma frase muito ouvida entre os agricultores. Eles têm, a partir da internet, acesso aos dados do Portal da Transparência, que sempre mostra uma quantidade de dinheiro que nunca dialoga com o que eles veem aplicado na estrada quando tentam escoar a pouca produção.
O movimento dos trabalhadores, portanto, foi honesto, foi sincero e fez as cobranças que precisavam ser feitas. O movimento só não percebeu um detalhe: ele acabou sendo refém de decisões que não foram ditadas pelos trabalhadores.
Foi o Governo do Acre que veio com a data determinada de apresentar um cronograma de obras no dia 17 de julho, às 9 horas, na sede do Deracre. A data, a hora e a razão foram apresentadas pelo Governo e assim será. E um detalhe ainda mais grave: esse cronograma de obras foi definido por quem? De que forma? Com referendo de quem? O cronograma não será uma ideia construída coletivamente, fruto de debate, arengas e risadas, como são as assembleias, normalmente.
O movimento dos trabalhadores rurais perdeu esse protagonismo. Perdeu a capacidade de dizer “Não. Não queremos assim”. Talvez com receio de ser apontado como “radical”, foi aceitando passivamente a agenda oficial. O Governo perdeu aquele receio de falar com mais cuidado com o trabalhador rural. Fala com respeito, mas sem medo de impor o que ele, Governo, quer. O pior de tudo foi o movimento se acostumar com isso.
Os trabalhadores exigem a presença da governadora nesse encontro do dia 17. “Queremos ouvir da boca dela!”, disseram os agricultores, na esperança de que Mailza Assis Camelí dê algum rumo às coisas. Será que o Gabinete Civil terá sensibilidade para observar a importância do gesto?
Um último detalhe que precisa ser lembrado (foi até citado nas discussões, mas ficou muito superficial): parte significativa dos agricultores que estavam ali era composta de produtores da Transacreana. Em tese, a responsabilidade das melhorias em ramais é da Prefeitura de Rio Branco que tem se mantido omissa. Um silêncio calculado.
O movimento foi parcialmente vitorioso. Ganhou porque disse o que precisava dizer. “Desentalou” o que estava atravessado na goela. Mas perdeu porque, enfraquecido, está sem condições de conduzir o processo. Ao contrário: está refém das decisões do Governo de plantão.