Opinião

A geografia da agricultura acreana: o que cada município produz

Por Orlando Sabino ·

Quando analisamos a agricultura do Acre, os números estaduais mostram apenas uma parte da realidade. Por trás deles existe uma agricultura territorialmente diferenciada: municípios e regionais vêm construindo vocações próprias, determinadas pelas condições locais, infraestrutura, mercado e investimentos realizados em determinadas cadeias produtivas.

É essa geografia da produção agrícola acreana que pretendo destacar neste artigo. Para isso, utilizei dados da Produção Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, referentes a 2025, adotando como indicador a área colhida, em hectares, das principais lavouras temporárias e permanentes.

Não se trata de estabelecer quais municípios possuem a agricultura mais eficiente ou rentável. Área colhida não mede produtividade nem valor da produção. O objetivo é identificar onde a agricultura está territorialmente mais presente e quais culturas caracterizam atualmente cada município e cada regional.

94 mil hectares e uma agricultura concentrada

Considerando as culturas selecionadas, o Acre registrou 94.393 hectares de área colhida em 2025. Milho, mandioca e soja respondem por grande parte dessa ocupação, enquanto café, banana, arroz, feijão e outras culturas ajudam a revelar especializações importantes.

O ranking municipal oferece uma primeira fotografia dessa distribuição.

Plácido de Castro lidera, com 10,7 mil hectares, seguido por Senador Guiomard e Capixaba. Chama atenção a presença de quatro municípios do Baixo Acre entre os quatro primeiros colocados, evidenciando a concentração territorial da agricultura de maior escala nessa regional.

Mas o aspecto mais interessante do ranking não está apenas no tamanho da área. Está no que se planta em cada território.

As regionais mostram agriculturas diferentes

Quando os 22 municípios são agrupados pelas cinco regionais, essa diferenciação torna-se ainda mais evidente.

Praticamente metade da área colhida está no Baixo Acre. São quase 45 mil hectares, fortemente influenciados pelo milho e pela soja. É nessa regional que aparece com maior nitidez uma agricultura baseada em grãos e de maior escala.

Mas a fotografia muda quando avançamos pelo território acreano. No Alto Acre, o milho divide espaço com mandioca, arroz, feijão e soja. No Juruá, permanece a forte presença da mandioca, ao mesmo tempo em que o café  ganha importância. Em Tarauacá/Envira, milho, mandioca e banana mantêm peso expressivo. Já o Purus, embora possua a menor área total, apresenta produção diversificada.

Um mapa das vocações agrícolas

Quando reunimos essas informações, surge um verdadeiro mapa das vocações agrícolas do Acre. Mais do que mostrar quem ocupa maior área, os dados revelam como cada território vem construindo uma identidade produtiva própria.

Algumas especializações municipais ficam particularmente evidentes. Plácido de Castro se destaca no milho e na soja; Acrelândia no café e na banana; Xapuri no arroz; Sena Madureira no feijão; Cruzeiro do Sul na mandioca; e Mâncio Lima desponta na expansão do café . Os rankings da PAM mostram, por exemplo, Plácido de Castro liderando milho e soja, enquanto Xapuri possui a maior área de arroz e Sena Madureira a maior de feijão.

No café, Acrelândia lidera com 650 hectares, seguida por Mâncio Lima, com 485 hectares, e Cruzeiro do Sul, com 240 hectares. Na mandioca, Cruzeiro do Sul ocupa a primeira posição, com 2.450 hectares.

Não existe uma única agricultura acreana

Essa talvez seja a principal mensagem dos dados de 2025: não existe uma única agricultura acreana. Existem agriculturas acreanas, com características territoriais próprias.

E conhecer essas diferenças é fundamental para orientar políticas de crédito, assistência técnica, infraestrutura, agroindustrialização e comercialização. As necessidades de uma região especializada em grãos não são necessariamente as mesmas de outra em que predominam mandioca, café ou culturas alimentares.

O ranking, portanto, é apenas o ponto de partida. Mais importante do que saber quem ocupa a primeira ou a décima posição é compreender o que cada município e cada regional estão revelando sobre o estágio atual da agricultura do Acre.

Reconhecer essas vocações e ajudá-las a avançar em produtividade, agregação de valor e acesso aos mercados talvez seja um dos principais caminhos para o desenvolvimento agrícola do estado.

Orlando Sabino escreve às quintas-feiras no ac24horas

Escrito por Orlando Sabino Fonte: AC24Horas
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