O preço da carne bovina sofreu três reajustes em 60 dias em Cruzeiro do Sul. A saída de bois, vacas e bezerros para Rio Branco e estados como Mato Grosso e São Paulo tem reduzido a oferta de animais para abate nos frigoríficos do Vale do Juruá e provocado aumentos que já pesam no bolso dos consumidores. Empresários do setor alertam que novos reajustes poderão ocorrer nos próximos meses.
O empresário Neto Tomé, do setor varejista de alimentos, afirma que os supermercados têm recebido aumentos sucessivos dos fornecedores. Segundo ele, o quilo da carne fornecida pelos frigoríficos passou de R$ 21 para R$ 22, depois R$ 23 e agora chegou a R$ 24.
“Vários fatores têm contribuído para isso. Os insumos têm aumentado, bem como o frete. E aí tem um agravante, além de estar aumentando, está caro, está faltando produto na praça. Estão vindo frigoríficos de fora buscar aqui, lá de Rio Grande do Sul e outros estados . Tudo que é boi gordo, vaca, bezerro, para engorda, está levando tudo. A fiscalização está solta. Quando é para vir o boi para o frigorífico é uma burocracia danada. O boi está saindo aqui, não tem barreira no meio do caminho, não tem barreira aqui. Os frigoríficos aqui estão garimpando, correndo de um lado para o outro, para tentar não deixar faltar no mercado local, porque o boi gordo está saindo. Os caras chegam com a proposta, com o preço lá em cima, pagando a vista, e o pecuarista, é claro, já está vendendo para eles.

O que nos preocupa é que chegando ao final do ano e esse produto não tem como faltar na mesa do consumidor. Fica cada dia mais caro e nos preocupa, porque todo mundo perde. Perde o consumidor, perdemos nós, varejistas. Porque diminui o consumo, diminui as vendas. Não é saudável para ninguém”.
Manuel Paiva, proprietário de um frigorífico da região, confirma a dificuldade para encontrar animais destinados ao abate. Segundo ele, a saída de bovinos registrada há cinco ou seis meses já provoca reflexos no abastecimento local. “Hoje estamos com dificuldade de bovinos na nossa região. Saíram muitos animais para Mato Grosso e São Paulo. O índice de animais disponíveis para abate está muito baixo e a tendência é que o preço da carne suba ainda mais. Acredito que daqui a 30 ou 40 dias teremos outro aumento”, afirmou.
Paiva explica que os frigoríficos precisam comprar animais diariamente para manter o funcionamento, mas enfrentam dificuldades diante da concorrência de compradores de outros estados e até de Rio Branco.
“Aqui quase todo dia sai carreta para São Paulo e Mato Grosso. Hoje o pessoal não está escolhendo mais se é vaca ou bezerro, leva o que tiver. De Rio Branco também estão vindo buscar boi aqui no Juruá para abater lá”, relatou.

Outro problema apontado pelo empresário é o preço dos bezerros, que chegam a custar R$ 3 mil na região, dificultando a reposição dos rebanhos. Segundo ele, o frigorífico está pagando cerca de R$ 22 pelo quilo do boi e fornecendo a carne por R$ 24, uma diferença bruta de R$ 2, antes dos custos operacionais.
“Os frigoríficos estão praticamente pagando para trabalhar. A margem está muito pequena”, afirmou.
Consumidores substituem carne por ovos e salsicha
O aumento já mudou os hábitos de consumo de algumas famílias de Cruzeiro do Sul. A dona de casa Marlene Rodrigues conta que passou a complementar as refeições com ovos porque não consegue mais comprar a mesma quantidade de carne bovina para a semana.
Segundo ela, o quilo da pá sem osso está sendo vendido por R$ 39.“Eu sempre compro carne sem osso, mas agora está quase R$ 40. Estamos completando com ovos, que também não estão baratos”, relatou.
A empreendedora Majori Melo, que trabalha com a venda de marmitas, também sente os efeitos da alta. Ela conta que o quilo da chã, bastante utilizado no preparo de bifes, custava entre R$ 34 e R$ 35 no início do ano. Depois passou para R$ 37, R$ 39 e agora chega a R$ 45 em alguns estabelecimentos.
“É um aumentão. A carne ficou um tempo entre R$ 37 e R$ 38, depois subiu para R$ 40 e agora já está sendo vendida por R$ 45 em alguns lugares”, contou.
O filé também está mais caro. Nos supermercados, o quilo chega a R$ 65, enquanto em açougues dos bairros pode ser encontrado entre R$ 50 e R$ 55.
Majori afirma que procura estabelecimentos com preços mais acessíveis, mas já precisou reajustar o valor das refeições que comercializa.“Hoje senti uma lapada no preço lá no mercado. Geralmente compro nos açougues dos bairros, onde o valor é melhor. Eu já reajustei os preços das marmitas por causa da carne”, disse.
