Opinião

Produtividade: onde a agricultura do Acre avançou e onde ainda precisa avançar

Por Orlando Sabino ·

No artigo anterior, mostrei que a agricultura acreana mudou de escala, composição e geografia entre 2019 e 2025. A soja ampliou fortemente sua área, o milho ganhou espaço, o café emergiu como uma das principais novidades e a mandioca, embora continue sendo a cultura de maior valor, perdeu participação relativa.

Mas existe outra dimensão importante dessa transformação: estamos produzindo mais apenas porque aumentamos a área cultivada ou também porque conseguimos produzir mais em cada hectare?

Os dados da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, revelam uma agricultura bastante heterogênea. Em algumas culturas, o Acre avançou significativamente e já apresenta rendimento superior à média brasileira. Em outras, a distância permanece grande.

Café, milho e soja lideraram os ganhos

Entre 2019 e 2025, o maior avanço ocorreu no café Canephora. O rendimento médio acreano passou de 1.784 para 3.443 quilos por hectare, crescimento de 93%.

No milho, aumentou 20,6% e, na soja, 17,7%. A banana apresentou pequena evolução, enquanto arroz e feijão praticamente não avançaram. Mandioca, cana-de-açúcar e laranja tiveram pequenas reduções.

Os números ajudam a separar dois fenômenos. No café, a área colhida cresceu 67%, mas a produção aumentou 222%, mostrando forte contribuição da produtividade. Na soja, ao contrário, a área avançou mais de 850%, enquanto o rendimento cresceu 17,7%. Sua expansão ocorreu, portanto, principalmente pela incorporação de área. No milho, os dois movimentos contribuíram.

A comparação com o Brasil

Quando colocamos o Acre ao lado da Região Norte e do Brasil, fica evidente que não existe uma situação única de produtividade.

Café Canephora, mandioca e soja apresentam rendimentos superiores tanto ao Norte quanto ao Brasil. A banana supera a média regional, mas permanece abaixo da nacional. Já milho, arroz, feijão, laranja e cana-de-açúcar apresentam rendimentos inferiores às duas referências.

Portanto, afirmar genericamente que a agricultura acreana possui baixa produtividade seria uma simplificação.

O salto do café Canephora

O café merece destaque. A produção acreana é formada pelo Canephora, espécie de café que inclui variedades como o Conilon e o Robusta, adaptadas a regiões de clima quente e utilizadas tanto na produção de cafés solúveis quanto, cada vez mais, de cafés de maior qualidade.

Essa distinção é importante porque o Arábica, predominante em outras regiões produtoras do país, possui características agronômicas e níveis de rendimento diferentes. Por isso, para avaliar corretamente a produtividade do café acreano, a comparação deve ser feita com o Canephora produzido na Região Norte e no Brasil, e não com a média do café brasileiro total, que reúne as duas espécies.

Em 2019, o rendimento acreano estava 24,4% abaixo da média brasileira do Canephora. Em 2025, alcançou 3.443 kg/ha, ficando 12,8% acima do Brasil e também superando a média da Região Norte.

Em apenas seis anos, portanto, o Acre saiu de uma posição bastante inferior à média nacional para um rendimento superior. É uma mudança relevante: enquanto a produtividade acreana cresceu 93%, o avanço foi de 49% no Norte e 29,3% no Brasil.

A soja também apresenta resultado positivo. Seu rendimento passou de 3.177 para 3.738 kg/ha e, em 2025, ficou 7,7% acima da média brasileira. Nesse caso, produtividade competitiva e forte expansão da área caminharam juntas.

Onde estão os maiores desafios

O milho avançou 20,6% entre 2019 e 2025, mas seus 3.153 kg/ha correspondem a apenas 49,5% da média brasileira. Como é a cultura com maior área colhida entre as analisadas, aproximadamente 39,2 mil hectares, existe aí um espaço importante para ganhos de produção sem depender exclusivamente da expansão territorial.

Esse resultado médio, porém, precisa ser analisado com cuidado. O Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), também do IBGE, permite distinguir o desempenho da primeira e da segunda safra de milho — e, no Acre, a diferença é expressiva.

No Acre, o rendimento estimado da segunda safra foi de 4.109 kg/ha, contra 2.797 kg/ha na primeira, uma diferença de 46,9%. Esse diferencial é muito superior ao observado na Região Norte, de 15,2%, e no Brasil, de 11,2%.

O dado traz uma informação importante para a análise. Embora a produtividade média do milho acreano ainda esteja bem abaixo da brasileira, a segunda safra apresenta desempenho significativamente melhor que a primeira. Ainda não alcança a produtividade da segunda safra do Norte, de 4.591 kg/ha, nem a brasileira, de 6.494 kg/ha, mas reduz parte dessa distância.

Mais do que apontar apenas uma deficiência, esses números levantam uma questão relevante para a política agrícola: o que explica o desempenho muito superior da segunda safra no Acre? Identificar o peso da tecnologia empregada, das áreas de cultivo, do perfil dos produtores, da mecanização, das variedades utilizadas e das condições de plantio pode ajudar a compreender onde estão as possibilidades de elevar a produtividade do milho no Estado.

A situação é ainda mais desafiadora no arroz e no feijão. O rendimento do arroz praticamente não mudou e, em 2025, representava somente 16,8% da média nacional. No feijão, permaneceu em 562 kg/ha, equivalente a 46,7% do rendimento brasileiro.

A mandioca apresenta situação oposta. Mesmo com queda de 3,6% desde 2019, seus 22.724 kg/ha permanecem 44,7% acima da média brasileira. O sinal de atenção é que, no período, diminuíram simultaneamente área colhida, produção e rendimento.

Produzir mais nas áreas já cultivadas

As diferenças entre os municípios também merecem atenção. Há localidades com rendimentos bem superiores à média estadual no café, na soja e no milho. A PAM mostra onde estão essas diferenças, embora não explique suas causas.

Isso sugere uma agenda importante: compreender o papel das variedades utilizadas, assistência técnica, mecanização, fertilidade e correção dos solos, crédito rural e escala de produção. Experiências locais bem-sucedidas podem oferecer referências para outras áreas do Estado.

Os dados mostram, portanto, duas dimensões da transformação agrícola recente. A primeira foi a expansão e mudança de composição da produção. A segunda é a produtividade — e nela o quadro é muito desigual.

O Canephora representa o caso mais expressivo de avanço. A soja combina expansão de área com rendimento competitivo. A mandioca mantém produtividade elevada. No milho, embora a média estadual ainda seja baixa diante da nacional, o desempenho significativamente superior da segunda safra mostra que existem experiências dentro do próprio Estado que merecem ser mais bem compreendidas. Arroz e feijão, por sua vez, continuam apresentando grandes desafios de produtividade.

A próxima etapa da agricultura acreana, portanto, não precisa depender somente da incorporação de novas áreas. Há um espaço importante para produzir mais e melhor nas áreas já cultivadas — e compreender por que determinadas culturas, safras e regiões apresentam resultados superiores pode ser um dos caminhos para isso.

Orlando Sabino escreve às quintas-feiras no ac24horas

Escrito por Orlando Sabino Fonte: AC24Horas
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