Há algum tempo venho utilizando este espaço no ac24horas para mostrar uma transformação que está acontecendo dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes. Por meio das pesquisas realizadas no âmbito do Projeto LEGAL – Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal, da Universidade Federal do Acre (UFAC), tenho acompanhado experiências de cooperativas agroextrativistas que atuam naquele território.
Nas entrevistas, visitas e estudos realizados, encontramos evidências do surgimento do que temos chamado de “novo cooperativismo”. Um movimento que mantém atividades tradicionais, como a borracha e a castanha, mas incorpora novos produtos, diversifica a produção, busca mercados e, principalmente, procura criar melhores condições de renda para as famílias que vivem na floresta.
Agora, um vídeo produzido pelo Projeto LEGAL permite ir além dos estudos. Permite conhecer alguns dos personagens dessa transformação e ouvir, de quem vive na Reserva Chico Mendes, seus problemas, expectativas e esperanças. Aquilo que vínhamos pesquisando ganha rosto e voz.
Da luta pela terra ao desafio de permanecer nela
O vídeo começa recuperando uma história que não pode ser esquecida. A Reserva Chico Mendes não nasceu simplesmente de uma decisão administrativa. Sua origem está diretamente ligada à resistência dos seringueiros diante da expansão das grandes propriedades e do desmatamento, principalmente a partir da década de 1970.
Os depoimentos recuperam os conflitos pela terra, os empates e o assassinato de Chico Mendes, em 1988. A criação da Reserva Extrativista surgiu como resposta àquela luta: assegurar às famílias o direito de permanecer no território, produzir e conservar a floresta.
Mais de três décadas depois, permanece uma questão fundamental: como garantir renda suficiente para que essas famílias possam viver dignamente dentro da floresta? Talvez uma das frases mais importantes do vídeo seja justamente uma das mais simples: “A gente só quer viver dignamente.”
Castanha e borracha continuam fundamentais, mas as famílias precisam gerar renda ao longo do ano. É nesse contexto que surge a necessidade de diversificar a produção e encontrar alternativas econômicas compatíveis com a manutenção da floresta.
Um dos jovens entrevistados representa muito bem essa nova realidade. Cresceu acompanhando o pai nos trabalhos da floresta, continua ligado à seringa e à castanha e agora começa a plantar café. O vídeo também destaca uma ideia fundamental: o desenvolvimento sustentável precisa combinar as dimensões ambiental, social e econômica. Se uma delas faltar, o modelo não se sustenta.
O que estamos chamando de “novo cooperativismo”
Em artigos anteriores, apresentei experiências da Coopaeb, Coopasfe e Cooperxapuri. São organizações com trajetórias próprias, mas que apresentam características em comum. Elas não abandonaram a base extrativista. Castanha e borracha permanecem importantes, mas passam a conviver com café, cacau, frutas, óleos e outras possibilidades produtivas.
No vídeo, ao comentar os resultados das pesquisas do Projeto LEGAL, procuro sintetizar aquilo que estamos observando: a inovação dessas cooperativas está na capacidade de combinar as atividades tradicionais com a diversificação, incorporando conhecimento, organização e novas possibilidades de mercado.
Portanto, quando falamos em novo cooperativismo, não estamos falando do abandono do extrativismo. Estamos falando de sua reorganização econômica. Nossos estudos sobre essas cooperativas já apontavam seu fortalecimento e sua crescente importância para as famílias. Também revelavam dificuldades: capital de giro, assistência técnica, armazenamento, transporte, acesso aos mercados e, principalmente, as precárias condições dos ramais.
Mas havia uma dimensão que documentos, balanços e entrevistas não conseguiam transmitir plenamente: os rostos, as vozes e o território onde essa transformação está acontecendo. É isso que o vídeo acrescenta à pesquisa.
Quando a pesquisa encontra a vida na floresta
Aquilo que vínhamos identificando aparece agora na fala das próprias pessoas. O cooperativismo passa a ser apresentado por quem produz, comercializa e enfrenta diariamente os desafios de viver na Reserva Chico Mendes.
Um dos depoimentos chama atenção para algo elementar: não basta produzir; é preciso ter para quem vender. A cooperativa organiza a comercialização, amplia a capacidade de negociação e permite que produtos da floresta cheguem a mercados que dificilmente seriam acessados individualmente pelos extrativistas.
Isso é particularmente importante porque a história econômica dos seringueiros foi marcada durante muito tempo pela dependência do patrão e, posteriormente, pela presença dos atravessadores. O cooperativismo procura modificar justamente essa relação.
O vídeo mostra também a participação das mulheres. Uma das entrevistadas lembra que elas trabalham na produção e, portanto, precisam participar das reuniões, das assembleias e das decisões. Em uma frase simples, resume: “as mulheres têm que ter voz também”.
E há a juventude. Reconstruir uma perspectiva econômica para viver na floresta significa também reconstruir a relação das novas gerações com aquele território. Se o jovem não enxergar perspectiva de renda, qualidade de vida e futuro, dificilmente permanecerá na floresta.
O cooperativismo não resolve tudo
Outro mérito do vídeo é não apresentar uma visão idealizada da realidade. Os moradores falam das dificuldades de escoamento da produção, da falta de mercado em experiências anteriores e da insuficiência dos serviços públicos.
Um dos depoimentos destaca que a presença do Estado na Reserva não pode ocorrer apenas por meio da fiscalização, multas e embargos. Precisa chegar também por meio da saúde, educação e políticas sociais.
As cooperativas podem organizar produtores, melhorar a comercialização, buscar mercados e agregar valor à produção. Mas não podem resolver sozinhas problemas de infraestrutura, assistência técnica, transporte, educação e saúde. O cooperativismo não substitui o Estado. Seu fortalecimento torna ainda mais necessária a presença de políticas públicas capazes de apoiar essas iniciativas. O mercado é necessário. Mas dificilmente será suficiente.
Produzir para conservar
Há uma questão maior por trás de tudo isso. Durante muitos anos, parte do debate sobre a Reserva Chico Mendes foi colocada como se fosse necessário escolher entre produzir ou preservar. As experiências que estamos pesquisando indicam que talvez a pergunta deva ser outra: como produzir para conservar?
Quando uma família consegue obter renda da castanha, borracha, café, cacau, frutas ou de outros produtos, permanecendo no território e mantendo a floresta, existe um benefício que ultrapassa o valor da mercadoria comercializada. Existe também um serviço prestado à sociedade pela conservação da floresta, da biodiversidade e dos recursos naturais.
Por isso, crédito adequado, assistência técnica, infraestrutura, industrialização, acesso aos mercados e mecanismos de pagamento por serviços ambientais precisam fazer parte de uma estratégia permanente para essas comunidades.
Quando os números ganham rosto
Depois de meses acompanhando cooperativas e procurando compreender as transformações econômicas e sociais em curso, o vídeo do Projeto LEGAL acrescenta uma dimensão diferente à pesquisa.
É o seringueiro que continua cortando seringa. É a família que coleta castanha. É o jovem que começa a plantar café. É a mulher que reivindica espaço nas decisões. São famílias que querem melhorar de vida sem abandonar o lugar onde nasceram.
E talvez uma das últimas falas do vídeo sintetize melhor do que qualquer indicador aquilo que está em jogo: preservar para que filhos e netos também possam continuar vivendo ali. É por isso que recomendo aos leitores desta coluna que assistam ao vídeo produzido pelo Projeto LEGAL/UFAC. Assista ao vídeo do Projeto LEGAL no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=vaoAyRzob2A
Ele ajuda a compreender que, por trás da discussão sobre cooperativismo, produção e conservação, existe uma questão muito concreta: criar condições para que quem vive da floresta possa também viver bem na floresta.
Talvez esteja justamente aí uma das chaves para o futuro da Reserva Chico Mendes.
Orlando Sabino escreve às quintas-feiras no ac24horas