O agronegócio brasileiro deve continuar enfrentando um cenário de custos elevados e crédito restritivo ao longo de 2026, mas encontra no câmbio um dos principais fatores de sustentação para as atividades voltadas à exportação. As projeções divulgadas no Relatório Focus, do Banco Central, em 28 de agosto, mostram a manutenção da Selic em 13,75% ao ano, dólar estimado em R$ 5,20 e crescimento de 1,92% para o PIB brasileiro neste ano.
Para o campo, a combinação desses indicadores influencia diretamente as decisões de plantio, investimento, contratação de crédito e comercialização da produção.
A Selic em 13,75% continua sendo um dos principais desafios para o produtor rural. Mesmo com linhas específicas de financiamento e recursos direcionados ao setor, o ambiente de juros elevados encarece operações de crédito e pode reduzir a disposição para novos investimentos.
Máquinas agrícolas, sistemas de irrigação, armazenagem, construção de estruturas, renovação de lavouras e expansão da atividade são alguns dos investimentos que podem ser afetados por um custo financeiro maior.
O cenário, entretanto, apresenta uma perspectiva de melhora no médio prazo. O mercado prevê que a Selic recue para 12% em 2027, 10,50% em 2028 e 10% em 2029. Se essas projeções forem confirmadas, o produtor poderá encontrar condições mais favoráveis para financiar investimentos e ampliar a capacidade produtiva.
Dólar favorece o produtor exportador
Para o agronegócio, um dos pontos mais relevantes do levantamento está no câmbio. A projeção do mercado mantém o dólar em R$ 5,20 para o final de 2026, enquanto a expectativa para 2027 é de R$ 5,30.
O câmbio nesse nível tende a beneficiar as cadeias que possuem forte participação no comércio exterior. Soja, milho, café, açúcar, algodão e carnes, entre outros produtos, têm seus preços influenciados pelo mercado internacional.
Quando o dólar está mais valorizado, a receita obtida com a venda de produtos agrícolas e pecuários no exterior pode representar um valor maior em reais, contribuindo para a remuneração dos produtores e para a competitividade das exportações brasileiras.
Esse efeito, porém, não é totalmente positivo para o setor. O agronegócio também depende de produtos e componentes com preços vinculados ao dólar. Fertilizantes, defensivos, máquinas, equipamentos e determinados insumos importados podem ficar mais caros em um cenário de câmbio elevado.
Por isso, o impacto sobre a rentabilidade depende da relação entre o preço recebido pelo produtor e o aumento dos custos de produção.
Inflação mantém pressão sobre custos
A previsão do mercado para o IPCA de 2026 caiu levemente para 5,01%. Para o agronegócio, a inflação continua sendo um indicador importante porque afeta toda a cadeia produtiva.
Combustíveis, transporte, energia, mão de obra, manutenção de máquinas, serviços e insumos podem sofrer reajustes, elevando o custo necessário para produzir e transportar alimentos e matérias-primas.
Uma inflação mais controlada, por outro lado, pode contribuir para preservar o poder de compra do consumidor e sustentar a demanda por alimentos no mercado interno.
Esse fator é especialmente relevante para cadeias que dependem mais do consumo brasileiro, como carnes, leite, ovos, hortaliças e outros produtos da agricultura e da pecuária destinados ao mercado doméstico.
Crescimento menor exige atenção ao mercado interno
A expectativa de crescimento do PIB brasileiro para 2026 caiu de 1,95% para 1,92%, enquanto a previsão para 2027 está em 1,50%.
Para o agronegócio, uma economia crescendo em ritmo mais lento pode significar menor expansão do consumo interno. O impacto, contudo, varia de acordo com cada cadeia.
Enquanto segmentos dependentes do mercado doméstico podem sentir uma demanda mais moderada, os setores exportadores continuam encontrando oportunidades no mercado internacional.
O desempenho das exportações permanece fundamental para o agro brasileiro. A projeção do Focus para a balança comercial de 2026 é de superávit de US$ 78 bilhões, reforçando a importância da geração de divisas pelo setor exportador.
Produtor deve priorizar gestão de custos
Diante desse cenário, a gestão financeira ganha ainda mais importância dentro das propriedades rurais.
Com juros elevados, o produtor precisa avaliar com cuidado novas operações de crédito e investimentos. Ao mesmo tempo, a possibilidade de um dólar mais valorizado exige atenção ao momento de compra de insumos e à comercialização da produção.
Para quem produz commodities destinadas ao exterior, o câmbio pode funcionar como um fator de sustentação da receita. Porém, a vantagem pode ser reduzida caso a valorização do dólar também aumente significativamente os custos dos insumos.
O cenário projetado pelo mercado, portanto, coloca o agronegócio diante de uma combinação de crédito caro, custos ainda pressionados e oportunidades nas exportações.
A perspectiva de redução gradual dos juros nos próximos anos representa um ponto positivo para os investimentos de médio e longo prazo. Até lá, produtores e empresas do setor deverão continuar atentos ao comportamento do câmbio, dos preços das commodities e dos custos de produção para preservar as margens e tomar decisões com maior segurança.
Para o agro brasileiro, o desafio em 2026 não está apenas em produzir mais, mas em produzir com eficiência, controlar custos e aproveitar as oportunidades oferecidas pelo mercado internacional.