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Liderança Ashaninka cobra proteção após invasão em terra indígena no Juruá

Francisco Piyãko afirma que comunidades continuam vulneráveis mesmo após denunciarem entrada de homens armados na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo

Por Redação ·
Francisco Piyãko: coordenador da OPIRJ alerta para os impactos da integração com o Peru no Vale do Juruá.

A denúncia de uma invasão por homens armados na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, continua gerando preocupação entre as comunidades Ashaninka. Em carta aberta, o coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), Francisco Piyãko, afirma que, mesmo após a comunicação às autoridades, as comunidades permanecem expostas ao risco de uma nova incursão e cobram ações concretas de proteção.

Segundo Piyãko, a invasão ocorreu em 6 de julho de 2026 e não representa apenas uma violação territorial, mas uma ameaça direta à segurança das famílias que vivem na região. Para a liderança, o problema é agravado pela localização estratégica da terra indígena, próxima à fronteira entre Brasil e Peru, onde a distância dos centros urbanos e a baixa presença do Estado podem favorecer a atuação de redes criminosas.

“Quando um povo precisa denunciar publicamente que teme pela própria existência e, depois de denunciar, continua exposto ao mesmo risco, sua vulnerabilidade aumenta”, afirma Piyãko no documento. Ele destaca que os indígenas conhecem profundamente os rios, caminhos, áreas de caça, pesca e locais de uso tradicional, podendo identificar mudanças e movimentações suspeitas antes mesmo que sejam percebidas por agentes externos.

Lideranças foram a Brasília

Diante da situação, quatro lideranças Ashaninka ligadas à Associação Ashaninka do Rio Amônia (APIWTXA), ao Instituto Yorenka Tasorentsi e à OPIRJ viajaram a Brasília em 23 de julho para alertar órgãos do governo federal sobre os riscos enfrentados na região.

De acordo com Piyãko, durante a agenda foram discutidas medidas emergenciais e mecanismos permanentes de segurança, além da elaboração de um plano de proteção para a região. Também foram iniciadas articulações para levar o tema à cooperação internacional e fortalecer a proteção de algumas lideranças consideradas em situação de risco.

Apesar dos avanços institucionais, a liderança afirma que existe uma diferença entre discutir medidas em reuniões e garantir proteção efetiva para quem permanece dentro do território.

“Para quem está no território, uma semana pode ser muito tempo quando a ameaça está presente a cada dia. O tempo tem outro peso. Cada dia importa”, escreveu.

A preocupação está relacionada também ao fato de que as pessoas que denunciaram a invasão continuam vivendo e circulando pelos mesmos locais por onde os invasores teriam chegado. Para Piyãko, a denúncia não elimina a ameaça e pode, inclusive, aumentar a exposição das comunidades diante daqueles que sabem que foram identificados.

Fronteira amplia os riscos

A Terra Indígena Kampa do Rio Amônia possui aproximadamente 87 mil hectares e está localizada em Marechal Thaumaturgo, na região de fronteira com o Peru. O território integra uma área de presença histórica do povo Ashaninka, que mantém vínculos culturais, familiares e territoriais dos dois lados da fronteira.

Segundo dados citados na carta, as terras indígenas com presença Ashaninka no Acre somam aproximadamente 715 mil hectares. No Peru, o povo está distribuído por diferentes áreas da Amazônia, incluindo o Departamento de Ucayali.

Para a liderança indígena, a fronteira política não corresponde aos limites culturais e históricos dos povos que vivem na região. Ao mesmo tempo, a dificuldade de acesso e a fragilidade da presença estatal podem ser exploradas por atividades ilícitas, trazendo consequências como violência, pressão econômica, intimidação, disputa territorial e destruição ambiental.

É nesse cenário que a Comissão Transfronteiriça Juruá–Yurúa–Alto Tamaya tem buscado ampliar a articulação entre comunidades e instituições dos países amazônicos para enfrentar ameaças relacionadas ao crime organizado e à pressão sobre os territórios.

“Quem protege os guardiões?”

Um dos principais questionamentos apresentados por Piyãko parte justamente da imagem dos povos indígenas como “guardiões da Amazônia”.

“Durante décadas, os povos indígenas foram reconhecidos como aqueles que ajudam a proteger a floresta. Somos chamados de guardiões da Amazônia. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: quem protege os guardiões quando a ameaça chega?”, questiona.

A liderança defende que a proteção dos povos indígenas seja incorporada a uma estratégia mais ampla de segurança da Amazônia, envolvendo prevenção, inteligência, presença permanente do Estado e integração entre instituições brasileiras e países vizinhos.

Para Piyãko, a comunidade indígena não quer ser tratada como vítima passiva. Ao contrário, afirma que os próprios povos continuam desempenhando papel ativo na vigilância e proteção territorial, denunciando riscos e buscando diálogo com as instituições.

O que não pode acontecer, segundo ele, é que essa capacidade de resistência seja utilizada para transferir aos próprios indígenas a responsabilidade pela sua segurança.

“Existe uma diferença entre reconhecer a capacidade de resistência de um povo e transferir para ele a responsabilidade pela própria segurança”, afirma.

Cobrança por ações concretas

Na carta, a OPIRJ cobra que os compromissos discutidos com o governo sejam transformados em medidas efetivas antes que uma nova invasão ou episódio de violência aconteça.

A liderança defende mecanismos de proteção específicos para comunidades indígenas localizadas em áreas de fronteira e pede que os conhecimentos tradicionais sejam considerados pelas estratégias oficiais de segurança.

A preocupação, segundo Piyãko, não se restringe ao povo Ashaninka. A região do Juruá está inserida em uma das áreas mais preservadas da Amazônia e em uma faixa de fronteira que conecta Brasil, Peru e outros territórios amazônicos.

Nesse contexto, o avanço de atividades criminosas sobre áreas onde a presença estatal é limitada pode representar uma ameaça que ultrapassa os limites das terras indígenas.

“A proteção dos povos indígenas e de seus territórios não pode depender da capacidade de uma comunidade enfrentar sozinha ameaças que operam em escala transfronteiriça”, afirma.

Ao final da carta, Piyãko reforça que a reivindicação é, sobretudo, pelo direito de permanecer no território com segurança. “Queremos manter viva nossa casa. Queremos poder chegar em casa livres de ameaças”, conclui.

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