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Lições do embaixador Parola ensinam a agropecuária acreana

Reportagem do jornal Valor Econômico, assinada pelo repórter Assis Moreira, traz nuances de novas referências da relação entre o setor agropecuário e a geopolítica que ainda não estão bem compreendidas nem por produtores e nem por muitos agentes públicos

Por Itaan Arruda ·

O ac24agro faz algo não usual: repercute o que foi publicado em outro site, tamanha a importância do que foi dito no texto do experiente repórter Assis Moreira sobre as ideias do embaixador Alexandre Parola. A reportagem foi publicada na edição de domingo no jornal Valor Econômico. As falas do embaixador Alexandre Parola foram obtidas no recente Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado em São Paulo. Como o acesso ao conteúdo é fechado para assinantes, o ac24agro decidiu divulgar, tamanha a importância do que se aborda. Pode ser pedagógico no que há de essencial para muitos produtores locais.

Quem é?

Alexandre Parola, atualmente, é embaixador do Brasil no Marrocos. Foi representante do Brasil na Organização Mundial do Comércio (em Genebra) e também na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Novas Referências

O embaixador usa uma metáfora musical para falar da construção de novos referenciais de atuação empresarial e produtiva. “Chega de Saudade”, disse Parola, aludindo à música que abriu alas do movimento Bossa Nova, para tratar da relação entre economia e geopolítica na atualidade. De acordo com o repórter Assis Moreira, o embaixador faz um convite a “a deixar de olhar para o passado e suas formas de atuação, crenças e estruturas conceituais”.

Diz o repórter, referindo-se a Parola: “Para o embaixador, falando em nome pessoal e como observador da geopolítica, o desafio para o país hoje é olhar para a frente; entender que os parâmetros mentais com os quais nos acostumamos durante décadas simplesmente deixaram de ser um espelho da realidade”.

Modelo de Multilateralismo em Crise

O embaixador avalia que a ordem multilateral com que se opera na atualidade é resultado de duas construções pós-guerra: 1945 (Segunda Guerra Mundial) e 1990 (pós-Queda do Muro de Berlim e o impacto das mudanças do fim da União Soviética com as políticas da Glasnost e Perestroika). Para o embaixador, os mecanismos de mediação de conflitos comerciais que foram construídos como resultado desses processos políticos entraram em crise. E precisam ser superados.

Especifica o repórter Assis Moreira. “O problema é que esse arranjo, que não ocorreu da noite para o dia, deixou de ser funcional. Exemplificou [fazendo alusão a Parola] com o Órgão de Apelação da OMC, paralisado desde 2019, numa crise que começou de forma pouco notada já em 2011 e foi se agravando ao longo de governos americanos muito diferentes entre si”.

Soberania do Agro

O embaixador, segundo relato de Assis Moreira, afirma que é chegada a hora de construir um novo cenário, que ele chamou de “Soberania Industrial do Agro”. Diz o embaixador Parola. “Soberania aqui como a ‘capacidade de decidir em que condições entramos no mundo. E essa não vem de decreto. Vem de indústria, de armazenagem, de capital. É autonomia que se converte em poder de decisão. E essa autonomia não se constrói no vácuo: ela responde a uma mudança concreta na forma como o mundo hoje organiza suas cadeias de suprimento’”.

Superpotência Agrícola

Parola tratou da força que o Brasil tem no cenário global e como isso era um elemento concreto nas mesas de negociações. “Eu não falava por um país que pedia espaço. Falava pela posição de uma superpotência agrícola, e era assim que o outro lado me via. Isso não é vaidade, é dado de negociação. E dado de negociação tem um custo: onde há admiração, há também temor. Onde há respeito, também há gesto defensivo”. 

E disse mais: “Acrescentou: “Nós olhamos o mundo há décadas. É hora de olharmos também para como o mundo nos percebe. Porque, num tempo em que segurança alimentar pesa mais que vantagem comparativa, entender o nosso próprio tamanho aos olhos do outro deixou de ser exercício de autoestima: virou instrumento de negociação”.

China

Ao falar da China, Parola lembrou que o plano quinquenal Chinês (2026/2030) entende a dependência dos alimentos importados como uma “vulnerabilidade de segurança nacional”. “Eles estão se movendo para depender menos de nós. Isso não é hostilidade, é exatamente a lógica que estou propondo aqui. Se a segurança alimentar é segurança nacional para eles, por que não seria também para nós, do lado da oferta?”, indagou.

A resposta a essa pergunta varia de país para país. Para o Brasil, Parola faz duas indicações: a diversificação de parceiros comerciais e a diminuição de dependência de insumos fundamentais. “Nada disso é revolucionário. Mas fazer isso será revolucionário”, afirmou.

Indústria

Ele tratou da agregação de valor envolvendo a indústria e lembrou a Alemanha que é uma das maiores exportadoras de café do mundo sem ter lavouras cafeeiras. Relata Assis Moreira, lembrando o que disse Parola. “Deter a fábrica é uma forma de poder, destacou o embaixador. Mas mencionou outra, mais direta: presença de mercado. E lembrou que, nesse caso, os números já falam por si. A diferença na exportação agrícola entre o Brasil e os Estados Unidos, que já foi de US$ 56 bilhões, está hoje em US$ 2 bilhões”.

É um indicativo de avanço que o Brasil conquistou. Mas há desafios e lembrou a infraestrutura como algo que precisa sofrer mudanças estruturantes no país.

Narrou Moreira sobre a fala do embaixador. “Uma das dimensões da projeção de poder, nesse novo mundo da geoeconomia e da geopolítica, é ocupar prateleiras e dominar elos da cadeia de valor, reiterou Parola. É preciso não apenas assegurar acesso a mercados, mas entrar neles tendo, por trás da produção, soluções logísticas eficientes e processamento que agregue valor — ou seja, transformar grãos em influência acrescida”.

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