Mercado

Aos poucos, acreano vê que ter boi no pasto não implica em carne barata

Cenário de escassez de carne no mercado regional mostra como a formação no preço do balcão do açougue é parte de uma intrincada rede de fatores em que o consumidor local, quase sempre, é visto como um detalhe

Por Itaan Arruda ·

A semana termina impactada pelo noticiário sobre a falta de carne no mercado local para abastecer a indústria frigorífica local. O cenário é temerário porque já começa a faltar diversidade e volume até para os fornecedores de restaurantes da Capital. O quadro ainda não é de desabastecimento generalizado. Ninguém noticiou isto. Mas é um cenário que preocupa, mesmo sabendo que, nesta época do ano, a oferta de carne é menor. Há um aspecto positivo, no entanto: aos poucos, o acreano vai percebendo que ter produção de carne no quintal de casa não implica, obrigatoriamente, que a carne será mais barata.

Um raciocínio um tanto quanto simplista e desinformado pode exigir que a carne no Acre seja barata porque, afinal de contas, vive-se aqui afastado dos grandes centros consumidores; o Acre tem um plantel de, aproximadamente, 5,1 milhões de cabeças para uma população de pouco mais de 884 mil pessoas. Isso equivale a, aproximadamente 5,7 bois para cada habitante.

Um leitor mais desconfiado ouve essa relação e pergunta: “E daí?” Ter quase seis bois por habitante e querer que o preço da carne seja mais barato por causa disso só teria razão de ser se vivêssemos na Rússia logo após a revolução, em 1917. As fazendas estatais (sovkhoses) foram criadas dentro de uma planificação e uma lógica completamente distintas do mundo em que se vive hoje. Nem na Rússia a coisa é mais assim.

O Acre, por mais modesta que seja a circulação de dinheiro por aqui, obedece à lógica de uma economia de mercado. E isso muda tudo, seja para o grande pecuarista ou para o produtor de bezerro. Ninguém cria gado pensando em planificações estatais. Cria-se gado para lucrar, como qualquer atividade comercial.

O Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento do Acre contratou a mais importante empresa de análise do mercado agropecuário do país, a Scot Consultoria. Os representantes da empresa estiveram aqui durante a Expoacre e foram taxativos: “não faltará carne”.

Se as tabelas e projeções apontam para a estimativa de que não haverá desabastecimento, o que está havendo então? Os gerentes dos restaurantes estão mentindo? Os empresários ligados à indústria estão mentindo? A Scot Consultoria está sendo tendenciosa? O lobby dos frigoríficos está manipulando o debate?

É preciso ter calma. Todas essas personagens citadas precisam uma da outra em toda a cena da cadeia produtiva da carne. Ninguém pode encarar o outro como um inimigo a ser combatido. Se alguém agir com esse espírito, age contra si. Tendo calma na análise, é preciso mirar o foco da atenção para uma outra personagem ainda não citada, mas que é tão importante quanto qualquer outra: o Governo do Acre.

Se o Acre não vive sob as rédeas de uma fazenda estatal, é bem verdade que o Governo do Estado precisa mediar com equilíbrio o sensível mercado pecuário local. Em um ambiente em que 95… 96% dos pecuaristas têm até 100 cabeças de gado na propriedade, o Estado acaba tendo uma responsabilidade que não existe em outros estados do país. O Estado precisa entender o papel de cada personagem na cena toda e precisa dirigir o drama de maneira que ninguém tenha protagonismo sobre o outro. Certamente, todos ficaram insatisfeito. Se isso acontecer, o Estado atuará com equilíbrio.

Não adianta responsabilizar o “preço da arroba” pago pelos frigoríficos como o único fator responsável pela saída de gado vivo do Acre para serem recriados e abatidos em outros estados. E não adianta porque não é verdade. O preço praticado no Acre não tem sido ruim. Veja o que disse o produtor Geraldo Pereira Maia, um dos mais atuantes pecuaristas na arena política local, quando perguntado se o preço da arroba praticado no Acre está ruim. “Considerando os preços de anos passados, não!”. Pereira, como é conhecido, foi verdadeiro. Embora, ele emenda outros dois problemas que precisam ser equacionados e resolvidos com Justiça e vontade política. “Porém,  a margem é muito pequena.  Tendo em vista o custo da regularização ambiental que ainda não está nessa conta”. Mais uma vez, ela está sendo verdadeiro.

Outro raciocínio equivocado e que está se cristalizando é achar que está faltando carne no Acre por causa da exportação. Isso não é verdade. Veja o que informa o último boletim da Federação da Agricultura e Pecuária do Acre sobre a “participação por tipo de inspeção dos abates”.

De acordo com o documento, 73,8% da carne produzida no Acre são beneficiados pelos atuais três frigoríficos com SIF (o BMG, em Tarauacá, não está operando com regularidade). Parte desse percentual é comercializada para outros estados do Brasil e apenas 5% desse montante é exportado.

O drama maior fica por conta dos 18 frigoríficos e matadouros espalhados pelo Acre. Essa é a parte do setor industrial que mais sente a saída dos 338.109 bovinos que saíram do Acre no primeiro semestre de 2026. Os dados são do Idaf. Diferente dos frigoríficos sifados, as unidades industriais com Selo de Inspeção Estadual (SIE) e com Selo de Inspeção Municipal (SIM) não têm como “pular abate”. Os abates precisam acontecer todos os dias. Com o produtor segurando o boi no pasto especulando pelo melhor preço da arroba, somado à saída intensa de gado, os pequenos frigoríficos têm passado dias bem difíceis.

Além de tudo isso, ainda existem as medidas de salvaguardas da China e a União Européia fechando o mercado a partir de 3 de setembro, alegando uso de antimicrobianos no rebanho brasileiro para melhora de desempenho no ganho de peso. “O mercado está agitado”, constata o presidente da Faeac, Assuero Veronez. A incógnita que ninguém sabe é o que pensa o Governo do Acre sobre essa agitação toda. É essa dúvida que alimenta a insegurança para o produtor e para o industriário. Como detalhe na cena, o consumidor assiste a tudo, bestificado.

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