Não é tão reconfortante e nem tampouco prazeroso tratar de detalhes incômodos em meio à euforia. O crescimento de 2% da Agropecuária sobre o PIB no primeiro trimestre divulgado pelo IBGE gera um quadro de entusiasmo que precisa ser melhor dosado. Dificilmente, o setor vai ter desempenho semelhante ao longo do ano.
Há fatores externos; há fatores climáticos; há fatores macroeconômicos (taxas de juros que não baixam). São desafios que impõem certa cautela a quem lida com pecuária e com agricultura. Se o Acre não tem força para influenciar os números do setor nacionalmente, é preciso lembrar que o que acontece ou deixa de acontecer no setor rural Brasil afora impacta diretamente o que acontece por aqui, Brasil adentro. A essência do problema é a mesma.
O fator climático, por exemplo, exige muito mais do pecuarista e do agricultor acreano. E esse ano já é possível a prudência falar mais alto. Com 94% de possibilidades de se formar o fenômeno El Niño no grau “Super Forte”, é bom que cada proprietário rural elabore o seu próprio “plano de contingência”. Os especialistas das agências do Centro Europeu de Previsão Meteorológica (ECMWF) e a NOAA (agência do governo norte-americano que monitora o clima em escala global) já informaram que há condições para formação do mais severo El Niño dos últimos 140 anos.
Este espaço já alertou: a retórica de que o Acre “tem um clima bom o ano inteiro” precisa ser revista urgentemente. É uma retórica ilusionista, mascara um cenário grave de desequilíbrios climáticos que não adianta negar. Eles estão aí, provocados pela ação humana e estão impactando diretamente a rotina do produtor. Será que o agricultor e o pecuarista, sentindo os efeitos dos desequilíbrios, vão continuar negando o fator ambiental por uma questão de manipulação ideológica?
A euforia do crescimento de 2% do PIB no primeiro trimestre esconde o aumento interanual de apenas 0,7% da agropecuária. O próprio governo está estimando queda na produção do milho. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção do cereal deve alcançar 108,4 milhões de toneladas na segunda safra. Isso é 4,2% menos que no ciclo 2024/25.
No caso do Acre, especificamente, o agricultor e o pecuarista têm que ficar muito mais cautelosos. Os problemas já crônicos do setor: os embargos e a insegurança jurídica em função da falta de regularização fundiária colocam freio na possibilidade de investimento em um produtor já descapitalizado. O que resta de 2026 não autoriza muito otimismo na agropecuária. Sobretudo no Acre.
