A cadeia de pescados do Brasil acompanha com preocupação o avanço das importações de tilápia neste início de ano. Dados compilados pela PeixeBR mostram que, somente em fevereiro, o país importou mais de 1,3 mil toneladas de filé do Vietnã. Convertido em equivalente de peixe vivo, o volume supera 4,1 mil toneladas — cerca de 6,5% da produção mensal nacional. É a primeira vez que as importações da proteína superam as exportações brasileiras.
O avanço do produto estrangeiro ocorre em um cenário de crescimento consistente da produção nacional ao longo da última década. Nos últimos 11 anos, a tilápia brasileira registrou expansão média de 10% ao ano, com destaque para Paraná e São Paulo, que lideram o ranking de produção.
A competitividade do produto importado é apontada como um dos principais fatores por trás do aumento das compras externas. O filé vietnamita chega ao mercado brasileiro com preços entre R$ 25 e R$ 29 por quilo — patamar próximo ao custo da matéria-prima nas indústrias nacionais, o que pressiona a margem da cadeia produtiva interna.
Apesar dos avanços em produtividade, tecnologia e eficiência dentro da porteira, o setor avalia que a competitividade brasileira é reduzida ao longo da cadeia. Custos tributários elevados, encargos trabalhistas e exigências ambientais mais rigorosas são apontados como entraves, ampliando a diferença em relação ao produto importado, que, em alguns casos, conta com benefícios fiscais, como isenção de ICMS.
A avaliação do setor é que o avanço das importações deve ser enfrentado com a equalização das condições de concorrência, especialmente nos aspectos tributário, sanitário, trabalhista e ambiental, de forma a garantir maior equilíbrio no mercado.
Além do aspecto econômico, o tema sanitário também preocupa. O Vietnã registra enfermidades ainda inexistentes no Brasil, como o TiLV, considerado altamente letal para a espécie. O risco levou entidades do setor de pescados de São Paulo a solicitarem, em fevereiro, o bloqueio da importação da tilápia do país asiático.
Paralelamente, foi solicitado ao Ministério da Agricultura e Pecuária o envio de missão técnica para realização da Análise de Risco de Importação (ARI), com o objetivo de avaliar possíveis riscos sanitários e definir medidas de proteção à cadeia produtiva nacional.
