A precariedade da infraestrutura das escolas rurais acreanas, tema que voltou ao debate após as denúncias envolvendo a Escola do Seringal São Bernardo, já havia sido apontada em estudo acadêmico publicado na Revista Educação & Ensino, em 2025. A pesquisa, intitulada “Educação do Campo no Acre: aspectos infraestruturais, acesso e formação docente”, foi realizada pelos pesquisadores Marcos Cândido da Silva e Maria Irinilda da Silva Bezerra, da Universidade Federal do Acre (Ufac).
O trabalho utilizou dados do Censo Escolar 2022, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), além de análises documentais e bibliográficas para avaliar as condições de funcionamento das escolas do campo no estado.
Os pesquisadores concluíram que grande parte dessas unidades opera em condições precárias, enfrentando limitações relacionadas ao acesso à água potável, energia elétrica, saneamento básico, estrutura física e formação docente. Entre os principais problemas identificados estão a falta de itens básicos, como água, energia e esgoto, além da escassez de vagas na educação infantil e de professores com formação adequada.

Vale lembrar que, em 2025, o Acre ganhou repercussão nacional ao ser destaque no programa Fantástico, da TV Globo, por um problema semelhante. A reportagem mostrou crianças de diferentes idades assistindo aulas em um antigo curral de bois adaptado como sala de aula, na comunidade do Limoeiro, zona rural de Bujari.
Sem paredes, piso adequado, água encanada e infraestrutura mínima para o funcionamento de uma escola, o espaço improvisado se tornou a única alternativa encontrada para garantir a continuidade das atividades escolares na localidade.
Educação infantil apresenta os piores indicadores
Um dos principais achados da pesquisa está relacionado ao acesso à educação infantil nas áreas rurais. Os dados mostram que apenas 8,5% das crianças do campo acreano de 0 a 3 anos estavam matriculadas em creches, percentual muito inferior ao registrado nas áreas urbanas do estado, onde a cobertura alcançava 23,5%.
Na pré-escola, a cobertura nas áreas rurais do Acre era de 60%, enquanto nas cidades chegava a 84%, uma diferença superior a 20 pontos percentuais.

Em relação ao ensino médio, os pesquisadores observaram que a cobertura nas áreas rurais alcançava aproximadamente 83%, índice inferior ao verificado nos centros urbanos e que indica a permanência de um contingente significativo de jovens fora da escola.
Formação dos professores também preocupa
O estudo também identificou fortes desigualdades na formação dos docentes que atuam nas comunidades rurais acreanas.
Segundo os dados analisados, 89,5% dos professores das escolas urbanas possuíam formação superior, enquanto esse percentual caía para 57,5% nas escolas rurais.
A diferença é ainda maior quando se considera a adequação da formação à disciplina lecionada. Nas escolas rurais do Acre, apenas 36,4% dos docentes possuíam formação considerada adequada, contra 81,4% nas unidades urbanas.
Falta de água, esgoto e acessibilidade
Ao analisar a infraestrutura das unidades de ensino, os autores concluíram que as desigualdades entre campo e cidade permanecem evidentes no Acre.
Os dados apontam que apenas 75% das escolas rurais possuíam água potável, enquanto o serviço estava presente em todas as escolas urbanas. O acesso à energia elétrica alcançava 85% das unidades rurais, e a cobertura de sistema de esgoto chegava a apenas 65%.

Outro indicador preocupante está relacionado à acessibilidade. Apenas 27,5% das escolas rurais possuíam estrutura adequada para receber estudantes com deficiência.
O levantamento destaca ainda que cerca de 130 escolas do campo no Acre não tinham acesso a serviços básicos, como água potável, energia elétrica, coleta de lixo, banheiros internos ou rede de esgoto.
Pesquisa aponta negligência histórica
Nas considerações finais, os pesquisadores afirmam que os dados revelam uma profunda negligência do poder público em relação à efetivação das políticas voltadas à Educação do Campo.
O estudo sustenta que as desigualdades entre áreas urbanas e rurais continuam sendo estruturais e refletem uma dívida histórica com as populações que vivem nas comunidades rurais.
Os autores defendem a ampliação dos investimentos e o fortalecimento das políticas públicas voltadas ao campo, com foco na melhoria da infraestrutura escolar, na qualificação dos professores e na garantia de condições adequadas de funcionamento das unidades de ensino.
Segundo a pesquisa, os problemas observados nas escolas rurais não representam situações isoladas, mas fazem parte de uma realidade que ainda afeta centenas de comunidades acreanas.
