Restaurantes de Rio Branco têm encontrado dificuldades para ofertar variedade de cortes aos clientes. A situação não é recente. Os relatos mostram que o problema persiste “há mais de um ano”. Os gerentes não encontram carne com a disponibilidade que havia normalmente há dois ou três anos.
Darlene Oliveira é gerente de um dos mais novos e sofisticados endereços gastronômicos especializado em carne bovina, o Fricarnes Steak House. Ela precisou se adaptar à disponibilidade ofertada pelos fornecedores. “Trabalhamos com cortes considerados nobres e mesmo estes cortes temos tido dificuldade. Pedimos uma quantidade X e por vezes recebemos quantidade Y e, ao questionarmos, somos informados que houve redução devido estarem com poucas carnes no momento”, relata. “Há cerca de pouco mais de um ano, temos tido cada vez mais dificuldades no abastecimento. E com essa dificuldade no abastecimento, consequentemente o preço de compra fica elevado”.
Por enquanto, o desabastecimento geral ainda não existe. O que há é escassez. O que em anos anteriores não era problema agora exige planejamento e ampliação do número de fornecedores.
Darlene Oliveira assegurou que ainda não repassou ao preço final o aumento sentido na hora de comprar carne. “Para nós, que trabalhamos no ramo alimentício, fica um tanto complicado, uma vez que compramos por um preço elevado e não conseguimos repassar essa elevação aos clientes. Se formos aumentar o preço do rodízio para ficar condizente com o custo atual do mercado, perdemos vendas e clientes”.
Outro gerente de uma tradicional churrascaria na região central da cidade (que preferiu não se identificar), disse que essa dificuldade “é sempre normal nessa época do ano, mas de um ano pra cá, tá pior”, afirmou. “Nós temos carne, mas não está como antes, entende?”. De acordo com ele, “a situação está assim para todos”.
Faeac descarta relação entre redução de oferta com saída de bovinos vivos do Acre
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Acre, Assuero Veronez, não relaciona a redução da oferta à saída de bovinos para serem recriados e abatidos em outros estados.
Veronez lembra que nessa época do ano há uma sazonal redução na oferta de carne: a chegada do verão; a diminuição das pastagens disponíveis e o aumento da oferta antes de o verão chegar são fatores que respondem pela falta de bois nessa época do ano.
“Essa falta momentânea de bois para abate, se é que ela existe, ela pode ter outras origens”, sugere Veronez citando como exemplo a seguinte situação. “O mercado está aquecido e os produtores tendem a segurar as suas boiadas, esperando que haja um aumento no preço da arroba. Isso é um fato. Tanto que esse problema, de escalas apertadas nos frigoríficos, está ocorrendo em todos os lugares do país”.
O presidente da federação lembra que as razões para isto podem variar. No entanto, ele descarta que guarda relação com a saída de bezerros “Pelos números que nós temos, por um trabalho da Scot Consultoria, que foi contratada pelo Fórum [Empresarial de Inovação e Desenvolvimento], os técnicos têm uma prévia e garantem que não vai faltar boi gordo”, disse Veronez. A Scot Consultoria é uma das mais prestigiadas empresas de análise de mercado agropecuário do país. “A grande quantidade de bezerro que saiu ainda não seria boi gordo hoje”.
De acordo com os boletins técnicos da própria Federação da Agricultura e Pecuária, saíram do Acre 338.109 bovinos vivos nos primeiros seis meses de 2026. O número diverge do que o ac24agro contabilizou (263.538). De qualquer forma, o primeiro semestre de 2026 teve volume de saída grande, comparado aos 12 meses de 2024 (216.887) e de 2025 (378.808).
Por que o mercado está tão pressionado? “Há vários fatores: primeiro é que o consumo está se mantendo. Para nós do Acre, explica menos ainda porque aqui 21% apenas da carne produzida no Acre é consumida em outros estados. Nós temos 5% que vai para exportação, 21% vai para outros estados e o restante é consumida aqui”, contabiliza Veronez.
O presidente da Faeac avalia que o cenário internacional também traz mais complexidade ao contexto de oferta de carne no mercado. Em alguns exemplos aumenta a pressão sobre o produtor brasileiro. Em outros exemplos, diminui.
“Nós temos o problema da China, que comprou ano passado um milhão e seiscentas mil toneladas e que esse ano resolveu estabelecer um teto de um milhão de toneladas [medidas de salvaguarda] e o que passar disso será sobretaxado [mais de 55%, fora os 12,5% protocolares]. Portanto, vai ser difícil continuar essa venda para a China”.
Para Assuero Veronez, os Estados Unidos passaram a ser grandes compradores de carne do Brasil [é o segundo maior comprador]. Os EUA são exemplo de aumento da demanda ao produtor de carne brasileiro.
Já a União Europeia vai deixar de comprar a carne brasileira a partir de 3 de setembro, devido a uma questão sanitária (o bloco alegou que o Brasil usa antimicrobianos e antibióticos para melhorar o desempenho da pecuária). “O fato é que o mercado está agitado. E isso interfere no preço, na oferta de boi”, constatou. “Às vezes, o pecuarista prefere segurar um pouco para ver se vende melhor e isso, aparentemente, está acontecendo aqui”.
Assuero Veronez não acredita que vá faltar carne. “Onde falta carne? Nas periferias, nas redes de açougues e esses frigoríficos não são abastecidos pelos frigoríficos com SIF, mas pelos frigoríficos abastecidos pelos frigoríficos que têm serviço de inspeção estadual e municipal. Essas vão ter mais dificuldades. Trabalham com muita vaca e têm mais dificuldade para se abastecer”.
Histórico
Veja três gráficos que mostram o cenário da saída de bovinos do Acre, os abates e os preços da reposição bovina. O comportamento desses três fatores ajuda o leitor a entender os cenários e a sazonalidade descrita na linha de argumentação do presidente da Faeac.


