Macaxeira

Seagri quer modernização da cadeia da mandioca

Diretor da pasta destaca tecnologias para reduzir trabalho manual, melhoria das casas de farinha e potencial do Acre para instalar fábrica de fécula

Por Redação ·

A modernização da cadeia produtiva da mandioca está entre os desafios para melhorar a qualidade da farinha e ampliar as oportunidades de mercado para os produtores do Acre. Durante entrevista ao ac24agro na última noite da Expoacre 2026, neste domingo (9), o diretor da Divisão de Tecnologia da Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri), Edinho Carlos, destacou ações de capacitação, desenvolvimento de equipamentos e melhorias nas casas de farinha.

Segundo Edinho, o calendário da cultura acompanha principalmente o ciclo de chuvas e estiagem. A colheita ocorre com maior intensidade durante o período seco, enquanto o plantio tende a aumentar com a aproximação das chuvas, especialmente entre outubro e dezembro.

“Os agricultores tendem a colher agora, mais na época seca mesmo. Quando vai se aproximando a época chuvosa, em outubro, novembro e dezembro, aí chega a época de plantio”, explicou.

O diretor também chamou atenção para os impactos das mudanças climáticas sobre a agricultura e defendeu o desenvolvimento de variedades mais resistentes às adversidades. Segundo ele, pesquisas de melhoramento genético realizadas pela Embrapa podem contribuir para aumentar a capacidade de adaptação das culturas.

“Está tudo indicando essa mudança drástica no clima. Mas acredito que, com o trabalho que a Embrapa vem fazendo de melhoria genética das variedades, não só para a mandioca, mas para outras cadeias, vamos conseguir avançar na resistência às adversidades climáticas”, afirmou.

Edinho destacou que o Acre é considerado um centro de diversidade da mandioca e possui variedades adaptadas às condições locais, como a Pachubão e a Caboquinha.

“O Acre é um centro de diversidade da mandioca. As variedades que já temos aqui acompanham o desenvolvimento climático e são adaptadas às condições da região”, disse.

Tecnologia para reduzir trabalho manual

Entre os principais gargalos apontados pelo diretor está a falta de mão de obra nas casas de farinha. Para enfrentar o problema, instituições como Embrapa e Emater vêm trabalhando no desenvolvimento e na transferência de tecnologias que possam reduzir o esforço manual durante o beneficiamento.

Uma das iniciativas envolve equipamentos capazes de automatizar parte do processo de fabricação da farinha, reproduzindo o movimento realizado manualmente durante etapas como a escaldadura e a torra.

“A ideia é replicar a qualidade da mexida feita à mão, utilizando um equipamento com motor que faça esse movimento e espalhe a mandioca da melhor maneira possível, tanto no processo de escaldadura quanto na etapa de assar”, explicou.

Para Edinho, a mecanização pode reduzir significativamente a quantidade de trabalho necessária no processo.

“Isso ajuda muito, porque fazemos boa parte da mão de obra que é consumida hoje no processo de fabricação da farinha”, afirmou.

Casas de farinha

Além da mecanização, o diretor da Seagri defendeu a modernização da estrutura das casas de farinha. Segundo ele, ainda existem unidades que mantêm estruturas antigas e condições que precisam ser melhoradas para elevar o padrão sanitário e a qualidade do produto.

“A gente vê algumas casas de farinha ainda com chão de terra batida e aquele velho catitu forrado de madeira. Sabemos que temos esse caminho para percorrer até chegar ao ideal”, afirmou.

Edinho citou como referência um modelo desenvolvido pela Embrapa, com aproximadamente 96 metros quadrados e estrutura planejada para organizar áreas como lavatórios, fornos e equipamentos de processamento.

“O desafio é pegar essa tecnologia, fazer a transferência e conseguir chegar ao nosso produtor”, destacou.

A Seagri também pretende ampliar as capacitações em boas práticas de produção e fabricação de farinha e derivados. A proposta é orientar os produtores desde as etapas iniciais até o beneficiamento.

“Acredito que precisamos intensificar a parte de capacitação em boas práticas de produção e fabricação de farinha e derivados. A partir dessas capacitações, conseguimos conscientizar os agricultores de que podemos elevar o padrão da fabricação da farinha”, explicou.

Segundo Edinho, a farinha continua sendo o principal produto obtido a partir do beneficiamento da mandioca no Acre.

Organização e comercialização

Outro desafio apontado pelo diretor é a comercialização. Para ele, a organização dos produtores em associações e cooperativas pode aumentar o poder de negociação e contribuir para a obtenção de melhores preços.

“Acredito que existe a necessidade de uma melhor organização em cooperativas. É com a união que se faz a força. Na mandioca, na mandiocultura, esse lema não é diferente”, afirmou.

Edinho citou uma experiência familiar envolvendo o próprio pai, que já cultivou mandioca e enfrentou dificuldades para conseguir um preço considerado satisfatório pela produção.

“Faltou mais pesquisa de mercado, conversar mais com os comerciantes e se inteirar mais. Talvez, se onde ele mora tivesse uma associação mais organizada, ele conseguisse se unir com outros produtores que trabalham com a mesma cultura e obter um preço melhor”, explicou.

Na avaliação do diretor, conhecer previamente o mercado é fundamental para evitar que o produtor fique dependente do preço oferecido no momento da comercialização.

“Um dos tópicos que trabalhamos nas capacitações é a viabilidade econômica. Se a pessoa não sabe o potencial de venda e o potencial de mercado que tem, acaba aceitando o preço que chega para ela”, comentou.

Acre tem produção para indústria de fécula

Edinho Carlos também afirmou que o Acre possui produção suficiente de mandioca para abastecer uma eventual indústria de fécula. Segundo ele, o principal obstáculo para a instalação de uma unidade seria a iniciativa necessária para transformar a produção existente em um empreendimento industrial.

“Eu acho que é mais iniciativa mesmo. Iniciativa tanto privada como governamental. Mas acredito que, pouco a pouco, vamos chegar nessa etapa. Então, eu vi que produção a gente tem. A gente tem mais do que suficiente de mandioca para fornecer para uma fábrica de fécula”, afirmou.

Segundo a estimativa apresentada pelo diretor, uma indústria de porte médio, com capacidade para processar cerca de 50 toneladas de mandioca por dia, poderia exigir investimento entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões, dependendo do tamanho da unidade.

“Deve chegar nesse patamar, por aí. Em uma indústria de produção média, algo em torno de 50 toneladas por dia”, explicou.

Para abastecer uma indústria com essa capacidade durante o ano, Edinho estima que seria necessária uma área cultivada de aproximadamente 600 hectares de mandioca.

“Com uma área de cultivo aproximada de 600 hectares, eu consigo fornecer para essa indústria que vai processar 50 toneladas por dia durante o ano”, disse.

Meta de capacitação

Entre as metas da Seagri para a cadeia produtiva está a ampliação das capacitações e das ações de mecanização. Edinho afirmou que a secretaria pretende capacitar 350 famílias até o final do ano em boas práticas de produção e fabricação de farinha.

“Temos dois trabalhos, que são as capacitações. Pretendemos, até o final do ano, capacitar 350 famílias em boas práticas de produção e fabricação. É um módulo bastante diversificado, que oferece uma boa orientação desde a produção inicial até a fabricação da farinha”, explicou.

A estratégia, segundo o diretor, busca atuar em diferentes etapas da cadeia, desde o cultivo da mandioca até o beneficiamento e a comercialização, combinando capacitação, tecnologia e organização dos produtores para melhorar a qualidade do produto e ampliar as possibilidades de mercado.

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