A situação do Igarapé São Francisco não é apenas um problema ambiental. É um retrato da desigualdade urbana, da fragilidade das políticas públicas e da incapacidade do poder público de lidar com territórios marcados pela vulnerabilidade social. Essa é a análise da líder do Programa de Áreas Protegidas e Conservação da Biodiversidade da SOS Amazônia, Daniela Dias, ao avaliar o estado atual de um dos principais igarapés urbanos de Rio Branco.
Segundo Daniela, o São Francisco ainda existe porque a intervenção humana, embora agressiva, não atingiu um nível irreversível. “Quem ocupa a beira do igarapé são pessoas com poucas condições financeiras. Não são áreas de grandes empreendimentos. Isso, paradoxalmente, acabou retardando um colapso maior”, avalia.
No entanto, a ausência de uma política consolidada de gestão dos recursos hídricos e de planejamento urbano empurrou o igarapé para uma degradação contínua. A retirada da mata ciliar, o despejo de resíduos, os movimentos de massa e os deslizamentos de terra são consequências diretas dessa negligência.
Daniela critica o modelo de atuação do poder público, que, segundo ela, falha ao não integrar diferentes áreas da gestão. “Não adianta falar apenas em resiliência climática se não há coordenação com políticas de saúde, habitação, urbanização e redução da vulnerabilidade social”, afirma.
A especialista também questiona a lógica de remoção de famílias sem garantia de condições dignas de reassentamento. Para ela, realocar pessoas para áreas distantes do centro, sem infraestrutura e oportunidades, tende a gerar novos problemas urbanos. “Temos exemplos claros de que isso não funciona e pode, inclusive, ampliar outros tipos de vulnerabilidade”, alerta.
Outro ponto levantado por Daniela é a comunicação ambiental pouco eficiente. Segundo ela, discursos genéricos sobre preservação não dialogam com quem depende diretamente do território para sobreviver. “É preciso mostrar que estamos vivendo uma crise hídrica e que manter um igarapé vivo é uma questão de sobrevivência urbana”, defende.
Ela também cobra transparência na gestão de recursos públicos. Daniela lembra que foi anunciado um fundo milionário para a revitalização do Igarapé São Francisco, mas que não houve retorno claro sobre sua execução. “Se existem recursos, eles precisam ser monitorados, avaliados e repensados de forma transparente. Caso contrário, não há impacto real”, afirma.
Para a líder da SOS Amazônia, qualquer política eficaz precisa partir do diálogo direto com as comunidades que vivem às margens do igarapé. “Não adianta chamar gestores e lideranças para fotos. Quem precisa estar no centro da discussão são as pessoas que vivem ali, que conhecem as vulnerabilidades e podem proteger o território”, conclui.
