No Juruá, Incra vive momento de colheita com Crédito Instalação

A notícia já foi amplamente divulgada durante a semana. Mas é preciso tentar entender o sentido da ação pública. Afinal de contas, para quê serve o crédito instalação a quem já está assentado?

Itaan Arruda

A distribuição regionalizada do Crédito Instalação para famílias assentadas no Vale do Juruá é consequência de um longo período de planejamento coordenado pelo ex-superintendente do Incra Márcio Alecio.

Com equipe reduzida (comparada aos mais de 300 servidores que o instituto chegou a ter no Acre), ferramentas modernas, com uso de satélites, georreferenciamento, drones, o grupo de Alecio vai melhorando a produtividade. Com as atuais ferramentas, é como se um servidor de hoje produzisse por dois ou três que vestiam a camisa há 40 anos. O nome disso é eficácia: fazer o que precisa ser feito. E isso tem impacto na eficiência: fazer o que precisa ser feito, de uma certa maneira, com uma certa estética, e em um determinado prazo.

Esse trabalho não é exclusivo de Alecio. O mérito dele é ter coordenado o processo com um entusiasmo na equipe que há muito tempo não se via. Em relação ao “Crédito Instalação”, por exemplo. Se alguém ligasse o microfone e perguntasse sobre qualquer assunto, Alecio dava um jeito de inserir o “crédito instalação” na resposta.

É preciso entender o sentido desta ação pública. As dificuldades de uma família assentada são de toda ordem. Pode ser uma recém chegada a um assentamento ou não. O “Crédito Instalação” é um dinheiro que o Estado Brasileiro oferece à família assentada quase a fundo perdido. Em tese, é um crédito. Ou seja: não é dinheiro a fundo perdido. O assentado tem que pagar um tanto. Na prática, é evidente que é uma ação de assistência. Nenhuma linha de crédito tem a generosidade de um desconto de até 96%. A cada R$ 100 que o Estado brasileiro oferece pelo Crédito Instalação, o assentado só paga R$ 4.

A partir desta informação uma série de discussões podem se estabelecer sobre o papel do Estado, sobre os modelos de desenvolvimento, sobre populismo, sobre uso eleitoral da reforma agrária. A agenda é extensa. O assentado, no entanto, sabe o valor que esse recurso tem. 

Quando o Governo Federal coloca R$ 3,48 milhões para 408 famílias de Cruzeiro do Sul; R$ 1,58 milhão para 101 famílias do Jordão; R$ 1 milhão para 97 famílias de Mâncio Lima ou R$ 1,64 milhão para 297 famílias de Rodrigues Alves, o que se espera em troca? Produção em larga escala? Agronegócio? Impacto na balança comercial brasileira? Não, exatamente. O que se espera é segurança alimentar; é ocupação de espaços rurais com eficiência e eficácia; é produção sustentável do ponto de vista ambiental e econômico; o que se espera é satisfação do agricultor de base familiar ali no chão em que ele pisa e envelhece.

O Incra segue o movimento por outras regionais. Deixa no Juruá um saldo de R$ 7,7 milhões em Crédito Instalação e mais de 903 famílias beneficiadas. Sem contar os 134 Contratos de Concessão de Uso; as 380 liberações de crédito; os 28 títulos definitivos entregues. No Acre, o Incra tem mudado. A percepção de “reforma agrária” de muitos é que engessou. Mas o Incra é teimoso. Feito semente em terra de pouca água.

O investimento de R$ 7,7 milhões em Crédito Instalação, a emissão de 134 Contratos de Concessão de Uso (CCU) e a entrega de 28 títulos definitivos compõem um pacote de benefícios do Incra voltados a mais de 900 famílias assentadas nas regiões do Vale do Juruá e do Tarauacá-Envira, no Acre. O conjunto de ações alcançou áreas isoladas e comunidades tradicionais do estado no período de 30 de março a 2 de abril.

A iniciativa combinou liberação direta de recursos em conta, assinatura de novos contratos e titulação, estruturando uma política pública que atua simultaneamente em três frentes: produção, segurança jurídica e inclusão produtiva para as famílias assentadas nos municípios de Mâncio Lima, Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves e Jordão.

Investimentos

Distribuída entre áreas urbanas e rurais, a ação percorreu territórios estratégicos do interior acreano, chegando a comunidades distantes, assentamentos e reservas extrativistas.

Em Cruzeiro do Sul, principal polo regional e porta de entrada do Vale do Juruá, o volume chegou a R$ 3,48 milhões, o maior entre os municípios atendidos. Parte significativa dos recursos — R$ 2,52 milhões — foi destinada à formalização de novos contratos de crédito no assentamento Jamil Jereissati, enquanto R$ 960 mil já estavam disponíveis para saque por famílias distribuídas em seis áreas de reforma agrária distintas.

O Teatro dos Náuas, espaço cultural central da cidade, reuniu centenas de beneficiários e simbolizou a dimensão coletiva da política pública. Moradora da zona rural de Cruzeiro do Sul, a agricultora Albeneide de Nascimento sintetizou esse avanço: “É uma bênção, porque eu esperei por muitos anos. Hoje a gente pode fazer financiamento, comprar o que precisa e desenvolver o terreno”, disse.

Já em Rodrigues Alves, município marcado por ramais agrícolas e forte presença de pequenos produtores às margens do Juruá, o Incra destinou R$ 1,64 milhão. Desse total, R$ 1,24 milhão financiaram novos contratos do Crédito Instalação nos assentamento Agro Juruá e Havaí, enquanto R$ 400 mil foram liberados diretamente para famílias de outros três assentamentos. O Parque das Cidades, local do mutirão, funcionou como ponto de convergência entre comunidades rurais e o poder público.

Em Mâncio Lima, o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) São Salvador recebeu R$ 1 milhão, distribuídos em 131 contratos. A comunidade, situada às margens do rio Moa, concentra famílias que dependem diretamente do investimento para estruturar roçados, fortalecer a produção e diversificar a renda. “Esse crédito é muito essencial para cada agricultor. Vai ajudar a nossa área da agricultura, onde a gente precisa desse recurso para investir”, afirmou o agricultor Isaías ao resumir o efeito da política pública.

No município de Jordão, na região Tarauacá-Envira, um dos mais isolados do estado, acessível majoritariamente por via fluvial ou aérea, foram aplicados R$ 1,58 milhão. Os recursos alcançam tanto o Projeto de Assentamento Casulo (PCA) São João quanto a Reserva Extrativista Alto Tarauacá, reforçando a presença do Estado em territórios historicamente de difícil acesso e ampliando as condições de permanência das famílias na floresta.

Estratégia

A ofensiva no Vale do Juruá consolida, na prática, um modelo de intervenção pública estruturado pelo governo federal para a Amazônia, no qual crédito produtivo, regularização fundiária e assistência técnica deixam de atuar de forma isolada e passam a operar de maneira articulada no território. Ao direcionar mais de R$ 7,7 milhões a áreas de difícil acesso e a comunidades historicamente invisibilizadas, o Incra reposiciona a política agrária como instrumento de desenvolvimento regional.

O desenho dessa estratégia pressupõe que o crédito injeta capital imediato na base produtiva; a titulação garante segurança jurídica e acesso a novos financiamentos; e a presença institucional organiza o uso da terra sob critérios de sustentabilidade. Trata-se de uma engrenagem que busca estruturar mercados locais, fortalecer cadeias da agricultura familiar e reduzir a vulnerabilidade socioeconômica no campo.

No interior do Acre — marcado por isolamento geográfico, dependência de vias fluviais e baixa densidade de serviços públicos — a ação sinaliza a presença do Estado, antes intermitente, e que passa a ganhar densidade e continuidade, criando condições concretas para que famílias assentadas permaneçam na terra, avancem em direção à autonomia produtiva, estabilidade econômica e inclusão nas políticas públicas da reforma agrária.

Números

A ação foi estruturada de forma regionalizada, alcançando diferentes territórios e perfis de assentamento:

● Cruzeiro do Sul: R$ 3,48 milhões — 408 famílias

● Rodrigues Alves: R$ 1,64 milhão — 297 famílias

● Jordão: R$ 1,58 milhão — 101 famílias

● Mâncio Lima: R$ 1 milhão — 97 famílias

Além disso, o mutirão incluiu:

● 380 liberações de crédito realizadas

● 314 agricultores mobilizados para reuniões técnicas

● 134 CCUs emitidos

● 28 títulos definitivos entregues

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