A possibilidade de um El Niño de forte intensidade durante a safra 2026/2027 levou a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) a sistematizar 163 medidas para ajudar o setor agropecuário a se preparar para os possíveis impactos do fenômeno climático. As recomendações foram apresentadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e incluem ações que podem ser adotadas tanto diretamente nas propriedades rurais quanto por meio de políticas públicas.
A nota técnica foi elaborada no âmbito do Grupo de Trabalho sobre El Niño, instituído pelo Mapa por meio da Portaria nº 928, de 30 de junho de 2026, com participação de especialistas da Embrapa e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Ao todo, cerca de 50 profissionais da Embrapa contribuíram para a elaboração do documento.
Segundo a análise, as informações disponíveis em agosto de 2026 indicavam a possibilidade de ocorrência de um El Niño de forte intensidade e permanência do fenômeno até o início de 2027. Os modelos analisados apontavam maior probabilidade de precipitação abaixo da média em extensas áreas do Centro-Norte do país e chuvas acima da média na Região Sul.
A Embrapa, entretanto, ressalta que essas projeções representam aumento do risco climático, mas não determinam antecipadamente perdas de produtividade. Os efeitos do El Niño podem variar de acordo com a região, cultura, sistema produtivo, intensidade e distribuição dos eventos meteorológicos.
163 medidas foram organizadas em três grupos
Das 163 medidas apresentadas pela Embrapa, 14 são consideradas transversais a todo o setor agropecuário, 139 são específicas para diferentes segmentos produtivos e outras 10 correspondem a ações viabilizadoras e instrumentos de política pública.
As recomendações abrangem setores como produção de grãos e algodão, fruticultura, silvicultura, olericultura, pastagens e pecuária, culturas industriais e aquicultura continental e marinha.
Entre as principais ações indicadas para as propriedades estão o acompanhamento das previsões meteorológicas, utilização de dados climáticos locais, aplicação do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), diversificação da produção, conservação do solo e da água, adoção de irrigação e drenagem, utilização de materiais genéticos adaptados, manutenção da infraestrutura e elaboração de planos de contingência.
A lista também inclui medidas de proteção econômica, como reservas financeiras, contratação de seguro rural e utilização do Proagro, além da capacitação das equipes responsáveis pelas atividades produtivas.
Norte está entre as áreas de maior atenção
As projeções climáticas reunidas no documento indicam um cenário de maior atenção para o Norte do Brasil. Para o trimestre de setembro a novembro de 2026, os modelos apontavam maior probabilidade de chuvas abaixo da média em praticamente todo o Centro-Norte.
O cenário se torna mais preocupante nos meses seguintes. Para novembro, dezembro e janeiro, a análise indica que grande parte da região Norte poderia apresentar probabilidade superior a 70% de ocorrência de precipitação abaixo da média.
Para a agropecuária, a combinação de pouca chuva e temperaturas elevadas pode aumentar a ocorrência de déficit hídrico e elevar a vulnerabilidade das culturas, especialmente quando a deficiência de água coincide com períodos críticos do desenvolvimento das plantas.
A própria Embrapa destaca que, em áreas do Norte e Nordeste, condições de pouca chuva durante períodos quentes podem provocar perdas significativas de produtividade, dependendo da espécie cultivada e da coincidência com a estação mais seca.
Outro fator considerado pelos pesquisadores é o comportamento do Atlântico Tropical. O índice TASI apresentou mudança de valores negativos para positivos, configuração que pode contribuir para o aumento do risco de chuvas abaixo da média na região Norte. A Embrapa, contudo, ressalta que esse indicador possui menor previsibilidade, o que aumenta a incerteza sobre sua evolução.
El Niño não significa necessariamente quebra de safra
Apesar do cenário de alerta, a nota técnica faz uma ressalva importante: a ocorrência do El Niño não significa automaticamente perda de produtividade.
Os pesquisadores explicam que os efeitos do fenômeno dependem da combinação entre as condições climáticas e as características de cada sistema produtivo. A quantidade total de chuva, por exemplo, não é suficiente para determinar se uma cultura será beneficiada ou prejudicada.
A distribuição das precipitações ao longo do ciclo, a temperatura, a radiação solar, a época de plantio, o estágio de desenvolvimento da cultura, a disponibilidade de irrigação e as práticas de manejo também influenciam diretamente o resultado da produção.
A análise histórica realizada pela Embrapa mostra essa diferença entre culturas. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a soja apresentou predominância de desvios positivos de produtividade em anos de El Niño, enquanto o arroz irrigado apresentou comportamento diferente.
Isso significa que uma mesma condição climática pode representar menor risco para uma atividade e maior risco para outra.
Estratégias envolvem prevenção e transferência de riscos
A Embrapa organizou o tratamento dos riscos em quatro estratégias principais: prevenção ou evasão, redução do impacto, transferência do risco e retenção ou aceitação do risco remanescente.
Na prática, isso significa que o produtor pode atuar antes da ocorrência de um evento extremo, reduzir sua vulnerabilidade, utilizar instrumentos financeiros para proteger parte da atividade e se preparar para possíveis perdas que não possam ser eliminadas.
Entre as medidas estão a escolha de cultivares mais adaptadas, planejamento das operações agrícolas, manejo do solo, estruturas de proteção, sistemas de irrigação e drenagem e adoção de sistemas produtivos capazes de aumentar a resiliência.
A implementação das ações também deve considerar o tempo necessário para sua execução. Algumas medidas podem ser adotadas imediatamente ou durante um ciclo produtivo, enquanto outras dependem de investimentos e mudanças estruturais que exigem planejamento de médio e longo prazo.
Seguro rural, crédito e assistência técnica estão entre as prioridades
Além das ações dentro das propriedades, a nota técnica aponta a necessidade de fortalecer instrumentos públicos capazes de estimular a adaptação climática.
Entre as prioridades estão a ampliação da cobertura do seguro rural, o aperfeiçoamento do crédito, do seguro e do Proagro como instrumentos de indução à adaptação e sustentabilidade, o fortalecimento do Zarc e dos sistemas de monitoramento meteorológico e climático.
A Embrapa também recomenda o desenvolvimento de um sistema nacional de monitoramento e quantificação das perdas provocadas por eventos climáticos na agricultura.
Proposta é transformar gestão de crises em prevenção permanente
Embora tenha sido produzida em razão do El Niño 2026/2027, a nota técnica apresenta uma proposta mais ampla: transformar a gestão de riscos agroclimáticos em uma política permanente.
A Embrapa defende que produtores e instituições tenham capacidade de antecipar, monitorar e responder não apenas ao El Niño, mas também a diferentes eventos extremos, como secas, excesso de precipitação, ondas de calor, geadas, tempestades e incêndios.
A estratégia representa uma mudança de uma atuação predominantemente reativa, quando as medidas são tomadas depois que o problema acontece, para uma estrutura baseada em antecipação, preparação, adaptação, monitoramento e aprendizado.
Grupo de Trabalho apresenta relatório nesta quinta-feira
O Grupo de Trabalho criado pelo Mapa deve apresentar, nesta quinta-feira (3), um relatório com propostas e estratégias de adaptação e mitigação relacionadas ao El Niño. A nota técnica produzida pela Embrapa integra uma das frentes de atuação do grupo.
Durante os trabalhos, foram reunidas informações e contribuições de diferentes instituições, incluindo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Embrapa, o Inmet e secretarias do próprio Mapa.
Entre as propostas está a criação de um plano de comunicação coordenado entre as instituições para ampliar o acesso dos produtores às informações sobre riscos climáticos e medidas de prevenção.
Safra 2026/2027 exige planejamento antecipado
Diante da possibilidade de um El Niño de grande intensidade, a recomendação da Embrapa é que o setor trabalhe em dois horizontes simultaneamente: reduzir os impactos sobre as atividades produtivas em andamento e corrigir vulnerabilidades estruturais que possam aumentar os prejuízos em eventos futuros.
A nota técnica conclui que a gestão do El Niño 2026/2027 precisa combinar medidas imediatas com ações permanentes de adaptação. A intenção é aumentar a capacidade da agropecuária brasileira de enfrentar não apenas o fenômeno atual, mas também outros eventos climáticos adversos que podem ocorrer nas próximas safras.