Agora vai?

Presença da raça girolando reacende debate sobre retomada do investimento no leite

Empresários desmistificam a antiga postura de que o produtor de carne excluía possibilidade de investimento em gado leiteiro

Por Itaan Arruda ·
Mudança no perfil do produtor de carne já admite algum investimento no girolando, a raça adequada à região para a produção leiteira. O Acre está retomando investimento na cadeia produtiva do leite? (Foto: Whisley Ramalho)

O perfil do pecuarista do Acre está mudando. É um dos aspectos de destaque na entrevista com os empresários Marcelo Lemos, da Galileu Leilões, e Jean Gotelip, da Norte Rebanho Reprodução Animal. A ideia de que o pecuarista que lidava com gado para corte não queria nem saber de gado leiteiro está sendo revisto.

Aos poucos, o mesmo produtor que faz a terminação de gado para abate está investindo em algumas poucas reses para a produção leiteira. O movimento ainda é modesto, mas pode se consolidar em uma tendência, caso o pecuarista perceba que há viabilidade econômica. É a sustentabilidade econômica que dita o ritmo e o rumo dos investimentos na propriedade.

Para isso, é preciso que seja formulada uma política pública que possa reconstruir o cenário que havia na região quando o Acre era isolado do Brasil por rodovia: não havia ligação com Porto Velho. O isolamento forçava o produtor do Acre a garantir a autossustentabilidade no leite. Havia menos municípios. O consumo de leite de gado era quase restrito às cidades do Vale do Rio Acre, Cruzeiro do Sul, Sena Madureira. Nas comunidades florestais, era comum o consumo de leite de castanha.

Esse cenário mudou com a integração rodoviária com Rondônia por meio da BR-364 em meados dos anos 80. Foi nesse período que o Acre passou a ser “invadido” por leites de outras regiões do país. Associado à falta de gestão eficaz na Companhia Industrial de Laticínios do Acre (Cila), a cadeia produtiva do leite passou a sofrer uma crise sistêmica. O produtor passou a focar na produção de gado para corte.

O Acre nunca mais se recuperou plenamente, apesar de diversas iniciativas do Governo do Acre e do Governo Federal, por meio da Embrapa. Sem investimento em genética, sem aplicação de tecnologia no pasto (e pasto com árvores e sombreamento, importante para a raça girolando), sem capital para ordenha mecânica e sem infraestrutura para escoamento da produção, a cadeia produtiva do leite no Acre foi definhando. O leite de caixinha produzido em outros estados foi entrando no Acre, até nas comunidades mais isoladas.

“A gente ainda vê muita coisa nos ramais, da turma da peleja do leite. O que eu percebo é aquela falta de tecnificação, no melhoramento genético dessas matrizes leiteira. E, paralelo a isso, a informação. Porque parece que nós estamos falando de uma coisa inacessível [melhoramento genético]. E não é. Ao contrário”, afirmou Marcelo Lemos.

Jean Gotelip, da Norte Rebanho Reprodução Animal, reforçou o investimento básico que o produtor de leite deve priorizar: o pasto. “Tudo começa pela boca”, lembrou. “Eu posso ter um animal superior, da raça girolando. Mas antes de você fazer qualquer modificação genética no seu rebanho, você precisa investir naquilo que ele vai comer”.

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