Olho do Agricultor

Produtor denuncia falhas na açudagem feita pela Seagri na Transacreana

Vídeo mostra trabalho feito pela segunda vez em uma mesma propriedade. Seagri nega falhas e explica como funcionam os critérios de atendimento

Por Itaan Arruda ·

O produtor Nildo Rodomilson vive com a mulher e a filha em uma pequena propriedade agrícola no Km 1 da Ramal Liberdade, localizado no Km 62 da Transacreana. Ele tenta diversificar a produção nos 5,5 hectares. Oferece hortaliças, banana e quer investir no plantio de melancia, mas precisa de água. Há três anos, peleja por ser atendido pela Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri) e não consegue ser beneficiado com o programa de açudagem. Indignado, resolveu denunciar o que considera injustiça. “Estão beneficiando quem não precisa e deixando os pequenos, que deveriam ser prioridade”, reclama.

E a denúncia não é feita por um produtor apressado, do tipo que quer ser atendido antes dos outros por capricho. Ele gravou um vídeo em que fica sugerido que a máquina PC está em uma propriedade da região pela segunda vez. “Sete do sete de dois mil e vinte e seis. PC fazendo açude onde ela já fez e para nós… nada. Ela já fez aquele dali, ó, no ano passado. E agora está aqui de novo e para nós nada”, afirma, mudando a câmera para uma área ao lado do local onde a máquina está operando.

“A máquina só está trabalhando no asfalto é o que dizem pra nós. Então, quer dizer que a dignidade só tem para quem mora no asfalto? Quantas vezes ela [máquina] tem que ir para as propriedades do asfalto para poder vir aqui fazer nossos açudes?”, pergunta, em tom de indignação.

Em um dos vídeos mostrados pelo produtor, é apresentada uma área em que a Prefeitura de Rio Branco fez o serviço de aragem. É nesta área que o produtor pretende usar para plantar melancia. Mas ele próprio afirma que ali o solo é tabatinga. Há necessidade de se investir em assistência técnica e algum recurso para que aquela terra seja minimamente produtiva. Recebeu calcário da Secretaria de Agricultura de Rio Branco. Mas a água é fundamental.

Assista ao vídeo do produtor mostrando a PC supostamente fazendo serviço em propriedade que não deveria ser prioridade de atendimento na açudagem

Até mesmo para o pequeno bananal que possui é preciso ter água. Na propriedade do agricultor Nildo Rodomilson, não é possível gastar R$ 500 ou R$ 600 por hora, com contrato mínimo de 100 horas. É o preço que, normalmente, tem sido cobrado pelo serviço no uso de uma PC para fazer açudes. “E eles já começam a contar as horas já desde quando saem da cidade. Não tenho condições”, afirma. Mesmo com toda dificuldade, a plantação de cheiro verde, couve e banana possibilita a participação em feiras livres junto com a esposa. Eles também entregam o resultado do trabalho para os programas da prefeitura.

Seagri nega falha e explica método de trabalho que levou açudes para 1,2 mil propriedades nos últimos 2 anos

A secretária de Estado de Agricultura, Themyllis Silva, negou que os critérios de atendimento dos produtores tenham falhas, em função de priorizar produtores por questões políticas. “Não queremos saber se é vermelho, se é azul. Não queremos saber cor nenhuma. Nós atendemos a todos. O problema é que a demanda é muito grande. Tem gente que está esperando pelo açude há oito, dez, doze anos”, contabiliza a secretária.

Ela nega que o trabalho esteja sendo feito em duplicidade. “Não fazemos o mesmo serviço. O que, às vezes, ocorre é que há problemas técnicos na barragem. E já que fomos nós que fizemos, então é razoável que nós façamos a correção”, pondera. “Outra coisa que precisa ser esclarecida: no inverno, nós tiramos a máquina dos ‘braços’ [ramais transversais] e colocamos no ramal principal. Fazemos isso para manter a máquina na região mesmo no inverno”.

Essa pode ser a explicação para a afirmação feita pelo produtor do Ramal Liberdade de que “só atende no asfalto”. A estimativa é que a região da Transacreana tenha 25 mil famílias de produtores de base familiar. Há regiões de difícil acesso.

Produtor mostra área de tabatinga onde pretende plantar melancia

Outro critério estabelecido pela Seagri coloca luz sobre a suspeita de que produtores com melhor estrutura estejam sendo beneficiados. “Nós atendemos a todos. É nossa missão. Agora, tem uma limitação. Nós limitamos o serviço a quinze horas de máquina por propriedade, para todos os produtores”, esclarece Themyllis Silva, da Seagri.

O coordenador do programa de açudagem é Rizomar Freire, mais conhecido como “Bacurau”. Acompanha a execução do programa desde o início, há três anos. “Nós já atendemos, neste período de dois anos, dois anos e meio, cerca de mil e duzentas propriedades”, assegurou Bacurau. Todo o processo é documentado pela Seagri. Para fazer esse serviço, Bacurau tem o domínio administrativo de três escavadeiras hidráulicas, duas pás-carregadeiras e três tratores de pneu. Das três escavadeiras, uma fica exclusiva para atender a polos agrícolas. Isso para atender a todo Estado.

“De todas as máquinas que foram entregues recentemente, nenhuma veio para cá”, esclarece a secretária. “A demanda é grande”.

Documento de Arrecadação Estadual comprova pagamento por parte do produtor. “Eles fazem questão de pagar”, diz secretária de Estado de Agricultura, Themyllis Silva. “Antes o serviço era de graça e feito sem nenhum método e sem critério. Hoje, é diferente”. 
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