Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, mostra que o preço do leite ao produtor voltou a subir no início de 2026. A chamada “Média Brasil” avançou 5,43% em fevereiro, fechando a R$ 2,1464 por litro — a segunda alta consecutiva.
Apesar da recuperação, o valor ainda está 25,45% abaixo do registrado no mesmo período de 2025, em termos reais, considerando a inflação medida pelo IPCA.
O movimento de alta tem sido impulsionado pela maior disputa entre laticínios pela compra de leite cru, em um cenário de oferta reduzida. Segundo o Cepea, essa menor disponibilidade está ligada tanto à sazonalidade — com impacto negativo das condições climáticas sobre as pastagens — quanto à postura mais cautelosa dos produtores após um ano de queda nos preços e margens apertadas.
Captação em queda e oferta restrita
Dados do Índice de Captação de Leite (ICAP-L) indicam recuo de 3,6% na coleta entre janeiro e fevereiro na Média Brasil. A queda foi puxada principalmente por estados como Paraná, Goiás, São Paulo e Minas Gerais.
Com menos leite disponível no campo, a produção de derivados também foi limitada, o que sustentou a alta nos preços ao longo de março.
Derivados disparam e acendem alerta
Pesquisa do Cepea, com apoio da Organização das Cooperativas Brasileiras, aponta que o preço do leite UHT subiu 18% em março na comparação com fevereiro. No mesmo período, a muçarela teve alta de 6,11% e o leite em pó avançou 4,17%.
No atacado paulista, o leite UHT chegou a R$ 4,16 por litro, enquanto a muçarela foi negociada a R$ 30,73 por quilo.
Já na primeira quinzena de abril, a alta continuou: o UHT atingiu R$ 4,94/litro e a muçarela R$ 34,33/kg. Apesar disso, agentes do setor demonstram preocupação com o repasse ao consumidor final, que pode frear a demanda no curto prazo.
Custos seguem pressionando atividade
Mesmo com a melhora nos preços do leite, o custo de produção continua em alta. Em março, o Custo Operacional Efetivo (COE) subiu 0,46% na Média Brasil, acumulando alta de 2,11% no primeiro trimestre.
O avanço foi puxado principalmente pelo aumento das despesas com operações mecanizadas, influenciadas pela alta do diesel. Fertilizantes e corretivos também ficaram mais caros, refletindo pressões do mercado internacional.
Por outro lado, os gastos com ração se mantiveram praticamente estáveis, e suplementos minerais chegaram a registrar queda, refletindo a cautela dos produtores em investir na alimentação do rebanho.
Importações crescem e ampliam déficit
No mercado externo, tanto importações quanto exportações de lácteos cresceram em março, mas as compras avançaram em ritmo mais acelerado.
Segundo dados da Secex analisados pelo Cepea:
- Importações subiram 33,3%, chegando a 242,6 milhões de litros em equivalente leite;
- Exportações cresceram 11,2%, somando 5,6 milhões de litros.
Com isso, o déficit da balança comercial de lácteos aumentou 33,9% no mês, atingindo 237 milhões de litros equivalentes.
No acumulado do primeiro trimestre de 2026, o Brasil importou cerca de 604 milhões de litros equivalentes, enquanto exportou apenas 14,9 milhões.
Poder de compra e perspectivas
Apesar do cenário desafiador, houve leve melhora no poder de compra do produtor frente ao milho. Em fevereiro, foram necessários 31,82 litros de leite para adquirir uma saca de 60 kg do cereal — queda de 5,79% em relação a janeiro.
Ainda assim, o setor segue em compasso de espera. A tendência para os próximos meses dependerá da manutenção da recuperação nos preços do leite e da evolução dos custos, especialmente com alimentação e insumos.
A expectativa é de que, caso os preços permaneçam firmes, os produtores retomem gradualmente os investimentos, o que pode influenciar a oferta e o comportamento do mercado ao longo do ano.
