Foi sintomático: o resultado da 31ª Agrishow, realizada esta semana em Ribeirão Preto (SP), refletiu como o setor agropecuário está no país. Endividado e com a média de inadimplência girando em torno de 7,4%, o produtor rural deu à maior feira do setor na América Latina um final melancólico. E não poderia terminar de outra forma. A organização anunciou recuo nas expectativas de negócios concluídos este ano em 22%, comparado à edição passada.
A intenção de negócios na feira deste ano foi de R$ 11,4 bilhões. Ano passado, os números consolidados apresentaram movimentação de R$ 14,6 bilhões. A apuração se refere apenas aos setores de máquinas agrícolas, irrigação e armazenagem. Não se contabilizam churros, pipoca e nem os “tchê tchê rê rê tchê tchê” que nem se apresentam por lá.
A redução de 22% no volume de negócios é reflexo de um contexto, de um cenário econômico em que o produtor agrícola está inserido no país. Há uma coerência, portanto. O que ficou estável, segundo os organizadores, foi o número de visitantes: 197 mil, semelhante ao número do ano passado.
E por que um editorial para tratar de uma feira no interior de São Paulo? Fica o alerta para que os organizadores da Expoacre 2026 não comecem a afiar as calculadoras para apresentar números mirabolantes na edição da feira deste ano.
Desde quando o então governador Jorge Viana inventou a ideia de relacionar a Expoacre como sendo “uma feira de negócios”, os números não param de crescer. A metodologia que justifica o delírio nunca fica muito clara. O fato é que, ano após ano, os números são cada vez mais fantásticos. “No total, a Expoacre já movimentou mais de R$ 2,1 bilhões desde 2008”, calcula reportagem da estatal Agência de Notícias do Acre, no dia 3 de agosto de 2025.
A Expoacre é uma feira de negócios que se resolve por manchetes oficiais. A realidade de quem vende bolo, churros, churrasquinho e pipoca, claro, é escandalosamente diferente. Haja venda de saltenhas e quibes até alcançar R$ 2,1 bilhões!
Esse ano de 2026 tem um agravante: é a primeira Expoacre sob coordenação integral de Mailza Assis Camelí. Por isto, não é absurdo imaginar que algum assessor apressado já esteja caprichando nas contas de soma e multiplicação para chegar ao resultado que ele, assessor apressado, entende ser politicamente positivo para a governante.
A governadora Mailza erra se permitir que isso vingue. Não será razoável que a Expoacre, pelas calculadoras oficiais, seja blindada do ambiente de crise que ultrapassa os 20% de inadimplência rural no Acre. A realidade do que acontece nas propriedades agrícolas não consegue entrar no Parque de Exposições Wildy Viana por quê? Alguém vai considerar a governadora mais competente quanto maior for o número apresentado? É isso o que a assessoria política dela avalia?
Para finalizar, é importante lembrar: a Expoacre é uma feira eminentemente estatal. A iniciativa privada vem à reboque no evento. A desejada “feira de negócios” só será realidade quando a iniciativa privada for hegemônica; ou quando o Governo do Acre for um dos convidados para expor, em dois ou, no máximo, três stands, os programas que estão sendo executados. E isso está longe de acontecer. Muito longe.
