O governo celebra. As manchetes estampam: “US$ 38 bilhões em exportações no 1º trimestre de 2026”. O palco está montado, mas quem está no campo sabe que a peça que encenam lá em Brasília não é a mesma que vivemos aqui na porteira. Como consultor estratégico, meu papel é iluminar o que os números escondem. É hora de desmontar a narrativa do “sucesso” e encarar a realidade da dependência.
A Armadilha do Volume: Trabalhar mais para ganhar menos
A primeira peça que cai na narrativa oficial é a do faturamento. Comemoram o valor bruto, mas silenciam sobre o preço médio, que caiu quase 3%. O produtor brasileiro está batendo recorde de suor: estamos entregando mais toneladas de soja e carne para receber menos por cada uma delas. Enquanto o governo fatura no superávit para pagar juros da dívida pública, o produtor vê sua margem ser esmagada entre custos de insumos altos e preços internacionais ditados por quem compra.
A Ilusão da Parceria: O “Dono” do nosso Mercado
Dizem que a China é nossa maior parceira. A realidade? Ela detém quase 30% das nossas exportações. Isso não é parceria, é vulnerabilidade sistêmica. Ao concentrar nossas vendas em um único destino que opera com opacidade e impõe tarifas unilaterais — como o golpe dos 55% na carne bovina —, o Brasil entregou a chave do nosso armazém. O “país que produz” parou de ser o “país que decide”. Se Pequim aperta um botão, o agro brasileiro entra em colapso.
O Fiador da Imagem Alheia: O Acordo Mercosul-UE
A narrativa diz que o acordo com a Europa trará “novos mercados”. A verdade técnica mostra que o acordo amplia a competitividade da indústria e das tradings, mas deixa o custo da adequação inteiramente nas costas do produtor. Somos usados como fiadores de acordos internacionais, assumindo riscos ambientais e burocráticos altíssimos, enquanto o prêmio de exportação fica retido nos intermediários.
A Prisão da Burocracia: O Estado que persegue em vez de proteger
Não há sucesso possível sob a sombra da insegurança jurídica. Enquanto celebramos recordes, produtores enfrentam embargos ambientais que duram 18 anos, mesmo sobre áreas já regeneradas. O Estado brasileiro é rápido para cobrar o superávit do agro, mas é letárgico e ideológico para garantir o direito de propriedade. O produtor hoje vive em uma “prisão perpétua” burocrática, onde o ônus da prova é sempre de quem trabalha.
Conclusão: Independência ou Submissão?
O superávit de US$ 33 bilhões não está no bolso do produtor; ele está sendo drenado por um Estado que caminha para uma dívida de 100% do PIB e por compradores internacionais que já entenderam nossa dependência.
O agro brasileiro é, sim, uma potência produtiva, mas está deixando de ser uma potência estratégica. Precisamos parar de bater palma para “recordes” que só servem para maquiar a nossa falta de soberania. A verdadeira independência começa quando pararmos de produzir para os outros e começarmos a decidir por nós mesmos.
Por: Celso Ricardo Ferreira (Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio)
