A entrevista da pesquisadora da Embrapa Acre Joana Leite ainda repercute, mesmo passada uma semana da divulgação no site ac24agro. Durante uma semana, leitores foram apresentando formas diferentes de indignação diante do que foi apresentado de forma tão serena e verdadeira.
O que chamou a atenção dos leitores do site foi o fato de que as diversas cadeias produtivas apresentam problemas específicos e os pesquisadores da empresa estatal começam a se debruçar na tentativa de encontrar uma solução.
Foi assim com o açaí e a questão da contaminação pelo protozoário Trypanosoma cruzi, que transmite a Doença de Chagas. Quando o problema surgiu como ameaça à saúde pública, um grupo de pesquisadores se debruçou para encontrar uma solução. Resultado: foi criado, nos laboratórios da Embrapa do Acre, o Néctar Misto de Açaí.
O néctar é um produto pronto para o consumo. Este néctar específico é misturado com outras frutas amazônicas, com destaque para o uso do guaraná. Ou seja: é um energético natural, feito com produtos da região e que consegue ficar à temperatura ambiente sem comprometer a qualidade do produto por quatro meses.

Para resumir o processo em dois parágrafos, pesquisadores e pesquisadoras da Embrapa levaram meses de estudos, repetições de protocolos, avanços, acertos, erros, recuos até se chegar ao produto final. Não é brincadeira! É empresa pública gerando conhecimento e oferecendo às empresas e ao poder público.
Outros dois produtos que deixaram indignados alguns foram a farinha de castanha-do-brasil e farinha de banana verde (banana comprida). A Embrapa foi acionada para buscar uma alternativa que garantisse a segurança alimentar de famílias de baixa renda. E, claro, utilizando elementos amazônidas.
Reiniciou-se outra série de experimentos e se chegou a dois produtos: a farinha de castanha e a farinha de banana. A Embrapa elaborou até um protocolo para a aplicação dessas farinhas em bolos e mingaus. É uma bomba proteica. Tão boa e nutritiva quanto a carne bovina ou quanto o ovo.
A fala da pesquisadora, dita de forma serena, embora carregada com algum grau de indignação, é incômoda: “Está tudo lá, na prateleira da Embrapa, aguardando”. E aguardando exatamente o quê? Aguardando que tenha algum empresário, algum investidor ou algum governante (governador ou prefeito) que entenda a importância do que está à disposição deles e não é usado.
Quem criou, quem elaborou, quem pesquisou está dizendo: “a receita, a fórmula, o protocolo, estão aqui. Apliquem. Usem”. Impressiona a falta de diálogo entre as instâncias públicas. Quanto custa manter pesquisadores de ponta, qualificados, trabalhos de destaque no universo acadêmico feitos pela Embrapa? Os procedimentos são feitos a partir de uma demanda real, prática. E quando se encontra a solução, governos e a iniciativa privada, praticamente, ignoram.
Já virou até chavão regional dizer que a “iniciativa privada acreana é privada de iniciativa”. As empresas locais têm a sua dose de responsabilidade, sim. Uma empresa local utiliza o protocolo para a produção de farinha de castanha-do-brasil, mas é de uma timidez constrangedora.
Se a iniciativa privada não entende ou não se arrisca (com os velhos argumentos de sempre), então cabe ao poder público induzir. A inclusão dessas farinhas na produção de mingaus e bolos, inseridas na merenda escolar, já traria um impacto grande na cadeia produtiva, tanto da castanha quanto da banana comprida. Sem contar que traria outro nível de nutrição a milhares de estudantes da rede pública de ensino. “Está tudo lá, na prateleira da Embrapa, aguardando” é uma frase que deveria envergonhar a muitos com poder de decisão por aqui.
