O flagrante feito pelo repórter cinematográfico Kennedy Santos, às margens do Rio Acre, no Centro de Rio Branco, nas imediações das obras do futuro Novo Mercado Elias Mansour, não deixa dúvidas: o fruticultor acreano vive uma das mais graves crises.
E o pior: uma crise gerada por diversos atores. Com destaque para o Governo do Acre que não consegue conversar entre si. O drama do fruticultor do Belo Jardim José Carlos Mendes, que já chegou a doar parte da sua produção e ontem (3) estava vendendo cada cupuaçu a R$ 1, essencialmente, é o mesmo problema vivido pelos produtores de Capixaba, que amargaram um 2025 de muita instabilidade.
Existe o estímulo à produção, mas a cadeia produtiva integral não é observada com a atenção devida. O escoamento, armazenamento e a venda são, na prática, ignorados pelos agentes públicos. É o que as imagens e as entrevistas feitas pelo repórter denunciam. Não há retórica que desconstrua o que foi mostrado ali.
José Carlos Mendes integra um sindicato. Na revolta diante do fato de estar pagando para oferecer um cupuaçu a R$ 1, depois de carregar 700 Kg de indignação e descaso, ele coloca governos, prefeituras, cooperativas, tudo se espreme no mesmo saco.
A reportagem do ac24agro apurou e constatou que o produtor não faz parte, formalmente, de nenhuma cooperativa. Mas, na prática, isso não desqualifica a situação exposta pelo produtor. Os 500 pés de cupuaçu que ele teima em cuidar precisam trazer consequência prática e positiva na comunidade dos 26 produtores que integram o sindicato ao qual pertence. E não é o que está acontecendo.
“Em alguns momentos, quando a produção aumenta muito, podem surgir dificuldades de comercialização. Já passamos recentemente por isso também com o maracujá. O papel da agricultura é produzir, e é isso que temos incentivado cada vez mais no Acre”, afirmou a secretária de Estado de Agricultura, Temyllis Silva. “Da parte da secretaria, atuamos no fomento, na assistência técnica e na articulação de mercado. Vamos procurar os produtores para entender melhor a situação e buscar caminhos que ajudem na comercialização”.
A fala da secretária é expressiva para demonstrar o problema. A Seagri fomenta a produção. Mas a cadeia é mais extensa. Alguém na estrutura de Governo precisa observar os outros fatores que impactam o processo. A gestora lembra do projeto Agricultor Digital. É uma alternativa, mas não resolve o problema em escala maior.
Há secretarias de Estado que podem equacionar essa situação. É preciso despolitizar a postura, compreender o papel das cooperativas e tratar o agricultor de base familiar com a dignidade que ele merece. Essa situação não é recente. Basta perguntar a quem produz.
