Um estudo publicado pela Embrapa no Acre propõe uma metodologia para orientar onde o poder público e a iniciativa privada devem priorizar investimentos em estradas e estruturas de armazenamento voltadas ao escoamento e à produção de grãos no estado. O documento, intitulado “Metodologia de priorização para logística de grãos no estado do Acre”, foi elaborado pelos pesquisadores Eufran Ferreira do Amaral e Judson Ferreira Valentim, além de Nilson Gomes Bardales, e reúne dados ambientais e socioeconômicos para identificar os pontos mais críticos da malha viária e os locais com maior potencial para implantação de silos e armazéns.
O trabalho parte de um diagnóstico que aponta o avanço acelerado da agricultura de grãos em áreas já abertas no Acre, principalmente com a conversão de pastagens para sistemas intensivos. Segundo o estudo, o estado possui atualmente 15,8% do território antropizado, sendo 91,5% dessas áreas ocupadas por pastagens, o que revela um grande estoque de terras já alteradas que podem ser reaproveitadas com produção agrícola mais tecnificada, sem necessidade de novas derrubadas.
Um dos principais destaques do documento é o crescimento expressivo da soja no Acre. Entre 2010 e 2022, a área colhida com a cultura saltou 6.470%, passando de 100 hectares para 6.570 hectares. No mesmo período, o milho apresentou crescimento bem menor na primeira safra, mas avançou com força na segunda safra, modalidade que praticamente não existia no estado até 2013. Em 2014, o Acre registrou 726 hectares de milho safrinha e, até 2022, esse número aumentou 1.182%, chegando a 9.310 hectares.
A Embrapa também chama atenção para o ganho de produtividade no milho de segunda safra. Em 2022, a produtividade do milho safrinha foi de 4.578 kg por hectare, resultado 54% superior ao registrado no milho de primeira safra (2.982 kg/ha). O estudo aponta que essa diferença ocorre porque o milho safrinha vem sendo conduzido majoritariamente por médios e grandes produtores com maior nível tecnológico, em áreas de rotação com a soja.
Apesar do crescimento produtivo, a pesquisa alerta para um gargalo que pode travar a expansão: a infraestrutura de armazenamento e transporte. O documento estima que o Acre possui atualmente capacidade de armazenagem de 75.919 toneladas, enquanto a produção de soja e milho no estado já soma 184.704 toneladas, evidenciando um déficit estrutural.
A Embrapa projetou ainda um cenário de expansão até 2030, considerando o uso de 30% das áreas de pastagens identificadas pelo Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) como aptas para intensificação sustentável com soja e milho. Nesse cenário, seria necessária uma capacidade adicional de armazenagem de 618.354 toneladas apenas para o milho. Para a soja, a previsão seria de produção adicional de 397.761 toneladas, embora o estudo destaque que boa parte do volume tende a ser destinado imediatamente à exportação.
Para responder a esse desafio, os autores estruturaram um método com ferramentas de geoprocessamento, integrando dados do ZEE, informações sobre solos, clima, produtores, silos existentes e rede rodoviária. A proposta foi construir um indicador capaz de apontar, de forma objetiva, onde os investimentos devem ser concentrados para garantir competitividade ao agronegócio sem ignorar as demandas sociais e ambientais.
Os resultados do estudo indicam que as áreas mais estratégicas para investimentos logísticos se concentram principalmente nas regionais do Baixo Acre e Alto Acre, onde estão as maiores áreas já desmatadas e também a maior proporção de terras com potencial para conversão de pastagens em agricultura intensiva. Nessas regiões, a Embrapa aponta prioridade para melhorias em rodovias federais, estaduais e ramais, visando garantir trafegabilidade durante todo o ano para o transporte de insumos, máquinas e produção.
No caso da armazenagem, o documento sugere uma estratégia escalonada. Os silos de grande capacidade deveriam ser instalados preferencialmente no Baixo Acre, por concentrar as melhores condições de acesso e maior número de produtores em atividade. Já os silos de porte médio seriam mais adequados tanto para o Baixo Acre quanto para o Alto Acre, enquanto os silos pequenos devem ser distribuídos em todas as regionais, com foco na demanda dos pequenos produtores, voltada para secagem, armazenamento local, autoconsumo e alimentação animal.
Ao final, a Embrapa destaca que a metodologia pode ser aplicada em outras regiões do Brasil, desde que adaptada, e reforça que a priorização de investimentos precisa considerar, de forma equilibrada, os aspectos econômicos, sociais e ambientais de cada município. O estudo foi elaborado a partir de demanda do Governo do Acre, por meio da Secretaria de Agricultura, em parceria com a Câmara Técnica do Agronegócio do Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento do Acre.
