Ilha do Marajó quer a criação da “universidade do búfalo”

Projeto inédito no país pretende impulsionar pesquisas e agregar valor à cadeia produtiva

Luiz Eduardo Souza

Mais do que um símbolo cultural da Ilha do Marajó, no Pará, o búfalo sustenta uma cadeia produtiva estratégica para a economia local. O arquipélago concentra o maior rebanho bubalino do Brasil, com estimativas que variam entre 650 mil e 800 mil animais, distribuídos principalmente nos municípios de Soure, Chaves e Cachoeira do Arari.

Presente no cotidiano da população, o animal é utilizado no transporte, na segurança pública e na gastronomia regional, com destaque para pratos tradicionais como o filé mignon de búfalo com queijo de búfala, um dos símbolos da culinária marajoara.

De olho no potencial econômico da atividade, a família responsável pela Fazenda e Empório Mironga planeja criar o Centro de Estudos da Bubalinocultura, projeto que vem sendo chamado de “universidade do búfalo”. A iniciativa pretende desenvolver pesquisas aplicadas em genética, manejo, sanidade e aproveitamento integral do animal, além de estratégias para agregar valor à carne, ao leite, ao couro e aos derivados.

Segundo o produtor rural Carlos Augusto Gouvêa, conhecido como Tonga, a proposta é ampliar o conhecimento científico sobre a espécie e disseminar informações para fortalecer a cadeia produtiva. “Precisamos estudar melhor o búfalo: melhoramento genético, manejo, sanidade, agregação de valor ao leite, ao couro e à carne. Esse centro não seria exclusivo de veterinários ou agrônomos, mas envolveria também áreas como tecnologia de alimentos, turismo e até medicina”, afirma.

Turismo rural como alternativa de renda

Enquanto o projeto do centro de estudos ainda está em fase de planejamento, a família diversificou as fontes de receita apostando no turismo de experiência. Criada em 2017, a iniciativa “Vivência Mironga” oferece visitas guiadas à fazenda, onde os turistas acompanham a produção artesanal de queijo de búfala e práticas agroecológicas adotadas na propriedade.

De acordo com Gabriela Gouvêa, filha de Tonga e presidente da Associação dos Produtores de Leite e Queijo do Marajó (APLQM), o turismo passou a ter papel central na sustentabilidade do negócio. “Produzíamos muito queijo e doce e pensamos em ampliar a produção. Foi quando entrou o turismo. Hoje, ele responde por cerca de dois terços da renda da fazenda”, relata.

Queijo do Marajó ganha reconhecimento nacional

Outro pilar da economia local é o queijo do Marajó, produzido a partir de leite cru com técnicas tradicionais. A regulamentação da produção artesanal levou anos e contou com participação decisiva da família Gouvêa. Em 2013, a queijaria da Mironga foi a primeira da região a obter inspeção oficial.

Anos depois, o produto conquistou a Indicação Geográfica (IG) concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), ampliando o valor agregado e a visibilidade do queijo marajoara no mercado nacional. O processo teve apoio técnico do Sebrae, que auxiliou na legalização, organização coletiva e fortalecimento dos produtores locais.

Com um rebanho expressivo, tradição produtiva e iniciativas voltadas à inovação e ao turismo, a bubalinocultura do Marajó desponta como um dos principais vetores de desenvolvimento sustentável da região.

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