A campanha de valorização dos produtos regionais “Feito no Acre” é um bom início. Mas é preciso mais. A campanha precisa ser mais agressiva. Precisa ter maior capilaridade. Entrar nas mercearias de bairro e botecos. Onde houver um produto à venda, é bem provável que haja um similar produzido aqui e, por isso, a marca da campanha deve estar naquela prateleira, por mais modesta que seja.
Pensada pela direção do Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento do Acre, pela Federação das Indústrias do Acre (Fieac), pelo Governo do Estado, pelo Sebrae e pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Acre (Faeac), a campanha veio em boa hora.
Entra na agenda econômica justamente quando o mapa agrícola do Acre passa por mudanças importantes: a desconcentração de capital no setor agrícola está acontecendo sem cerimônia. Por meio de investimentos vultosos do Governo Federal, sobretudo pela ação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), a estruturação de cadeias produtivas importantes acontece para além do Vale do Rio Acre.
O que está acontecendo em Mâncio Lima é algo inédito: redução de 7% da dependência do Bolsa Família e aumento de 98% na arrecadação de ICMS do município por conta do café. Produtor de base familiar comprando moto, comprando terreno, construindo casa. Um cenário difícil de imaginar longe de Rio Branco e municípios do Vale do Rio Acre.
Nesse aspecto, há que se destacar também o papel estratégico do cooperativismo. O que a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) tem feito no Acre também precisa ser reconhecido. Por meio do trabalho cooperativo, o produtor entendeu que organizando e planejando direitinho, dá para todo mundo ganhar. Sem o cooperativismo, dificilmente a ABDI teria tido condições e segurança de ter emplacado R$ 15 milhões com resultados tão rápidos. As cooperativas deram visibilidade ao trabalho do agricultor de base familiar do Acre. O trabalhador sente isso. E alimenta o ciclo de forma positiva. E o que isso tem a ver com a campanha “Feito no Acre”? Ora, tem tudo a ver.
Mas há melhorias que a campanha precisaria atentar. Entre as personagens de todas as cadeias produtivas, o elo mais fraco é justamente o do consumidor final. A campanha precisa convencer a ele, consumidor. É preciso um trabalho de educação/formação de tal grandeza e força que o consumidor se sinta indignado ao não encontrar na prateleira o café produzido aqui, a bolacha produzida aqui, a manteiga produzida aqui e assim com um sem número de produtos.
A indústria do Acre tem condições de oferecer isso ao consumidor. Em volume e em qualidade. Até mesmo porque está se falando aqui do “consumidor médio”. Quem pede vinho por assinatura, viaja duas ou três vezes por ano e é acostumado a comer sobremesa à base de tâmaras secas está fora do radar dessa campanha. Ou ao menos não é a prioridade.
O foco da campanha deve ser a maior parte do povo. O acreano precisa valorizar aquilo que é produzido, manejado, elaborado e finalizado aqui mesmo. É preciso massificar a ideia de que, quando compramos uma manteiga de Minas Gerais, estamos gerando emprego e renda lá em Minas. Quando compramos leite de Rondônia ou Goiás, estamos gerando emprego e renda em Rondônia ou Goiás.
“Mas e se o leite daqui não é bom e nem tem ‘leite de caixinha’ produzido aqui?!”, podem raciocinar alguns. Pois bem! Que isso sirva de mote para que se possa pressionar governos e empresas a também acreditar no consumidor acreano, obedecendo ao mote: “Produza com qualidade que eu compro!”. A campanha “Feito no Acre” tem que ter esse espírito de mão dupla: governos, empresas e consumidores ensinando e pressionando uns aos outros. A coisa em si não se sabe muito bem o que será afinal. Mas o espírito da coisa é este.
