O portfólio é o seguinte: há aproximadamente três anos, a empresa Nosso Frigorífico tinha autorização para exportar para apenas cinco países. A capacidade de abate estava restrita a 400 animais por dia e a industrialização efetiva de apenas 100 cabeças. Ou seja: a planta industrial fazia os manejos de cortes e carcaças em apenas 25% dos animais abatidos.
Três anos, uma Apex e R$ 60 milhões de investimentos depois, a realidade é outra. O Nosso Frigorífico praticamente dobrou a capacidade de abate (ampliou para 800) e tem condições, atualmente, de industrializar o material de 500 animais. São empregadas 450 pessoas diretamente. Desde dezembro, o empresário Murilo Leite peleja para contratar mais 50 para atividades específicas e não encontra mão de obra. O número de países que recebem a carne processada ali subiu para 17, com estimativa de chegar a 25 até dezembro deste ano. São números incomuns para a economia acreana. O que está acontecendo no Nosso Frigorífico é de uma densidade poucas vezes vista por aqui. E isso tem causas que extrapolam a fulanização do debate.
Em três anos, os sócios do Nosso Frigorífico resolveram investir em um movimento conjunto do setor. Atualmente, o Acre tem 4 frigoríficos sifados, com condições de exportar carne. Houve decisões empresariais de ampliar. O número consolidado pelo Sindicato das Indústrias de Frigoríficos e Matadouros é de R$ 120 milhões. Desse montante, o Nosso Frigorífico é responsável por metade, R$ 60 milhões. Mas a decisão de ampliação não é exclusiva do Nosso Frigorífico.
Em Senador Guiomard, o Frigomarcas também ampliou capacidade de abate; o BMG, em Tarauacá, apesar de o grupo estar vivendo momentos dramáticos em vários estados do país, no Acre, desenvolve importante trabalho na região do Vale do Tarauacá/Envira. Por enquanto, a crise ainda não se apresentou por ali. E a JBS dispensa apresentações. O fato é que os empresários do setor perceberam segurança no ambiente da cadeia produtiva da carne por aqui, embalados por uma mudança no cenário político nacional.
Nenhum empresário decide investir em um ambiente de insegurança. É necessária previsibilidade, estabilidade. E isso foi percebido. A tal da “diplomacia presidencial” exercida por Lula, sobretudo agora na “versão 3.0”, turbinou a presença do setor agropecuário brasileiro no mundo. A Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos (ApexBrasil) foi criada por Lula há 23 anos. Nos últimos três anos, tendo à frente o acreano Jorge Viana, articulou 22 encontros empresariais em todo o mundo com participação direta do presidente da República. É a Política viabilizando negócios.
Mesmo o extremista de direita mais radicalizado não pode negar esse relato. O que se apresenta aqui é fato. Independente de qualquer preferência político-partidária, é preciso reconhecer que para Jorge Viana e Murilo Leite fecharem a porta de um container com 27 toneladas de carne processada no Acre para Singapura, isso faz parte de um longo processo. Seria um erro fulanizar o debate, mas também seria injustiça não reconhecer que o produtor de carne foi o grande promotor desta engrenagem; seria injustiça que não se reconhecesse que o Governo do Acre, ainda na gestão do primeiro mandato de Jorge Viana, criou o Idaf (Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal), em parceria com produtores; seria injustiça não reconhecer que a classificação sanitária Livre de Aftosa também aconteceu ainda na administração de Jorge Viana já no segundo mandato. A classificação de Área Livre de Aftosa Sem Vacinação caiu no colo do governo Gladson Camelí que, em plena pandemia, nem soube direito o que fazer com a conquista.
O Acre precisa se desarmar de preconceitos. Fala-se na possibilidade de que o Estado tenha um portfólio que gere exportações já na casa do bilhão nos próximos anos, caso não haja nenhum retrocesso e o setor agropecuário continue com o atual nível de investimento. Agregando valor e aplicando tecnologia em toda cadeia da carne, a sede por desmatar diminui. Com pessoas comprometidas com o crescimento econômico e com decisões de ordem política acertadas, o Acre tem feito o dever de casa. Ainda há muitos desafios. Embargos ambientais, regularização fundiária, desconcentração da renda.
Consolidar outras cadeias produtivas é um deles. Há outros produtos. Dezenas, aliás. Nem só de boi vive a economia regional. São necessários novas personagens e novas decisões. Quem se habilita?
