Atolado em ramal, menino com braço quebrado demora 6 horas para chegar ao PS

A história de um braço quebrado em dois lugares mostra como os agricultores da Transacreana e da Reserva Extrativista Chico Mendes estão sem assistência em várias áreas da gestão pública. As condições do Ramal do Riozinho expõem o contexto inteiro

Itaan Arruda

São 42 segundos de indignação e dor. O vídeo gravado pelo trabalhador extrativista Jeferson Silva Costa mostra o menino Caleb J. F. de L., de apenas 11 anos, aos prantos. Chorava porque o braço esquerdo quebrou em dois lugares. Os dois estavam cercados e atolados por lama em um quadricículo no Ramal do Riozinho, na Reserva Extrativista Chico Mendes.

Demorou seis horas para que eles chegassem até a Estrada da Transacreana. Foram direto para a UPA do 2° Distrito. Alguém orientou que na Unidade de Pronto Atendimento atendia esse tipo de caso. Não atende. O garoto foi transferido para o Pronto Socorro, onde foi atendido.

“Eu fiquei indignado e mostrei no vídeo como é a nossa situação aqui na reserva”, disse Jeferson Silva Costa, já mais calmo e de volta à casa onde mora, vizinho à casa do garoto, que vive com a avó e se prepara para cursar a 7ª série.

“A questão é como estamos esquecidos, como somos tratados. Não temos apoio em nada aqui. Nada. Com muita luta, nós conseguimos uma escola mais próxima. Mas o Calebe, por exemplo, já vai ter que estudar ‘para o ano’ em uma escola localizada a quase 20 quilômetros daqui”, voltou a esbravejar Jeferson Costa. “Saúde, produção, a questão dos ramais. A imagem que fiz com o Calebe chorando diz muito”.

O menino mora com a avó, Maria Doralice Felix do Nascimento, de 52 anos, na Reserva Extrativista Chico Mendes. A mãe de Calebe, Dalila Félix do Nascimento, tinha 17 anos quando foi assassinada em Rio Branco.

O feminicídio gerou muitas manchetes há pouco mais de 10 anos. Após dois meses desaparecido, o corpo da jovem foi encontrado em uma cova rasa, com marcas de esfaqueamento no Ramal Pólo do Calafate. Era março de 2016. “Até hoje, eu não tenho o atestado de óbito de minha filha e isso me causa muito problema”, diz Doralice do Nascimento, já entre soluços e choro. “Não sei quem do IML errou no documento: não colocaram o sexo da minha filha e o cartório rejeitou. Mandaram eu voltar. Eu voltei e até hoje isso não se resolveu”. E o choro se renova. “Ele tinha cinco meses quando mataram ela”, diz, referindo-se ao neto.

Maria Doralice Félix do Nascimento recebe Bolsa Família. A regularização do atestado de óbito é importante para que ela resolva outras questões de ordem burocrática em relação à política de assistência social.

Há momentos de alguma esperança. No meio da dor, uma recordação faz ensaiar um sorriso. “Deus é tão generoso que fui eu que ‘dei de mamar’ ao meu neto”, lembra a avó de Calebe.

Compartilhar esta notícia
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *