O uso irregular de agrotóxicos e a pulverização aérea clandestina com drones voltaram ao centro do debate durante entrevista do apicultor Anselmo Forneck ao AC24Cast. Com 47 anos de experiência na atividade, ele afirma que o problema vai além da falta de diálogo e envolve falhas graves na fiscalização.
“É muito difícil. Em primeiro lugar, só temos um drone no Acre autorizado para fazer pulverização. E nós temos mais de 200 operando, todos clandestinamente. Esse é o primeiro problema”, declarou.
Segundo ele, a própria estrutura de fiscalização é insuficiente. Forneck afirma que o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) conta com apenas três técnicos para atuar em todo o interior do estado.
“O próprio Imac afirmou que só tem três técnicos no Acre inteiro para fazer essa fiscalização. Dizem que não há fiscalização. Então o que vai caber é uma ação do Ministério Público. Mas depende do tipo de ação, porque eu não sei quem pulverizou ou que horas pulverizou. O que eu vou fazer e contra quem?”, questionou.
O apicultor relata que os prejuízos não atingem apenas as abelhas. No ano passado, segundo ele, produtores da região da Transacreana também foram afetados.
“Tivemos várias denúncias ano passado. Na Transacreana, vários produtores perderam a produção toda. Macaxeira, milho, morreu tudo por conta de fazendeiros do local que usaram drone, que não respeitaram as normas do Ministério Público e do meio ambiente, nem o tipo de veneno a ser usado”, afirmou.
Desastre histórico na Alcoolbrás
Durante a entrevista, Forneck relembrou um episódio que considera o primeiro grande desastre ambiental envolvendo pulverização aérea no Acre: o caso da antiga Alcoolbrás.
“O primeiro desastre no Acre foi a Alcoolbrás. Pouca gente deve lembrar disso. Nós tínhamos ali o maior centro de apicultura do estado. Foi a primeira atividade predominada por mulheres”, contou.
Segundo ele, pulverizações aéreas realizadas para combater pragas nos canaviais espalharam veneno para além da área de plantio.
“Fizeram sobrevoos de pulverização para matar grilos nos canaviais. O veneno se espalhou pela vizinhança toda. Não sobrou uma colmeia de abelha. Perderam 100%. Até crianças tiveram queimaduras por resquício de veneno. Pessoas foram contaminadas com água”, relatou.
Para o apicultor, o episódio deveria servir de alerta permanente sobre os riscos da aplicação indiscriminada de defensivos.
“Temos que ter consciência sobre isso ou uma fiscalização séria”, defendeu.
Educação e responsabilidade compartilhada
Ao abordar a possibilidade de educar produtores e aplicadores sobre o uso correto dos agrotóxicos, Forneck reconhece que o cenário é complexo. Para ele, enquanto não houver controle efetivo sobre a pulverização, principalmente com drones, o prejuízo continuará recaindo sobre apicultores e pequenos agricultores.
A discussão reacende o debate sobre a necessidade de equilíbrio entre tecnologia no campo, cumprimento de normas técnicas e proteção ambiental, especialmente em um estado onde a polinização é fundamental para diversas culturas agrícolas.
