Estudo destaca potencial bioativo da película da castanha de caju e reforça caminho para extração sustentável

Pesquisa com participação da Embrapa aponta que subproduto desprezado pode se transformar em insumo para as indústrias de alimentos, cosméticos e fármacos

Redação
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Um estudo científico com participação da Embrapa revelou que a película que envolve a amêndoa da castanha de caju — conhecida como cashew nut testa shell (CNTS) — possui alto potencial bioativo e pode deixar de ser um resíduo descartado para se tornar matéria-prima de alto valor agregado.

A pesquisa, publicada na revista European Food Research and Technology, avaliou a composição química e as alternativas sustentáveis de extração dos compostos presentes na película da castanha do cajueiro (Anacardium occidentale). Apesar de representar apenas 1% a 3% do peso da castanha, o volume gerado é significativo em países produtores como o Brasil.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país produziu mais de 127 mil toneladas de castanha de caju em 2023, o que pode ter gerado até quase 4 mil toneladas desse subproduto. Atualmente, a maior parte é descartada, incinerada ou destinada à alimentação animal.

Compostos com ação antioxidante e anti-inflamatória

A revisão científica aponta que a película é rica em polifenóis, taninos, flavonoides, catequinas e outros compostos fenólicos. Essas substâncias apresentam forte atividade antioxidante, antimicrobiana e anti-inflamatória, além de potencial aplicação nas indústrias farmacêutica, cosmética e de alimentos funcionais.

Os pesquisadores destacam que, além do valor nutricional, esses compostos podem contribuir para o desenvolvimento de ingredientes naturais com propriedades funcionais, alinhados à demanda crescente por produtos sustentáveis e de origem vegetal.

Extração verde e inovação industrial

Um dos principais focos do estudo é a transição de métodos convencionais de extração — que utilizam grandes volumes de solventes e alto consumo energético — para tecnologias mais sustentáveis.

Entre as técnicas consideradas promissoras estão a extração com fluido supercrítico, líquidos pressurizados, água subcrítica, micro-ondas e ultrassom. Esses métodos reduzem o uso de solventes tóxicos, diminuem o tempo de processamento e aumentam a eficiência na recuperação dos compostos bioativos.

A pesquisa reforça que a valorização desse resíduo está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da United Nations, especialmente o ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura) e o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis).

Desafio: sair do laboratório e chegar à indústria

Apesar do potencial identificado, os autores apontam que ainda existem desafios relacionados à escalabilidade, custo de implementação das tecnologias e regulamentação para uso em alimentos e medicamentos.

O estudo conclui que a película da castanha de caju pode deixar de ser um passivo ambiental para se tornar uma oportunidade econômica, integrando cadeias produtivas mais sustentáveis e ampliando a bioeconomia no setor da cajucultura.

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