Afinal de contas, como eram as coisas por aqui?

A revista Paleoamazonia é um projeto editorial que traz nova dimensão sobre a compreensão histórica da Amazônia, “uma região habitada, transformada e impactada por sociedades complexas ao longo de milênios”, como reforça o material de divulgação

Itaan Arruda
Especialistas relacionam a proteção aos geoglifos com a proteção à floresta. Talvez esteja nisto uma das dificuldades no diálogo com o setor produtivo. (Foto: Diego Gurgel)

Na segunda parte do artigo do professor Alceu Ranzi, o leitor do site ac24agro tem a oportunidade de saber qual a relação dos geoglifos com a concepção espiritual da Civilização Aquiry, o domínio da geomorfologia, a capacidade inventiva. No texto, fica evidente que há mais ou menos 2000 anos, os povos que viviam por aqui e os que viviam nos Andes mantinham relações; realizavam trocas. Coisas que hoje pelejamos para fazer e encontramos muitas dificuldades.

Nas conclusões do professor Alceu, talvez esteja uma pista do porquê o setor produtivo tem tanta resistência em admitir a importância dos geoglifos. “… para preservar os geoglifos será necessário primeiro a floresta. É uma tarefa enorme…”. A Civilização Aquiry nos desafia até hoje.

Geoglifos do Acre: paisagem cultural na Amazônia (parte 2)

por Alceu Ranzi

Fotos: Diego Gurgel

Terra sagrada

Ao final do século 19, antes da construção da estrada de ferro Madeira Mamoré, o famoso explorador brasileiro Antonio Rodrigues Pereira Labre buscou uma rota terrestre entre as áreas da produção de borracha, ao longo dos rios Beni e Madre de Dios até um ponto navegável do Rio Acre, com o objetivo de construir uma estrada de ferro que conectaria a região Pando/Beni de Bolívia com Manaus, através dos rios Acre e Purus.

Partindo desde o Porto de Maravilla pelo Rio Madre de Dios, Labre viajou por terra, a pé, com a intenção de chegar à margem direita do Rio Acre e conseguiu, terminando sua jornada na desembocadura do Riozinho do Rola. No caminho, Labre passou por vários povos Araona (família linguística Tacana), alguns dos quais já haviam sido abandonados devido às transferências das missões religiosas e o uso da mão de obra indígena na extração da borracha.

Entretanto, antes de chegar ao Rio Acre, que nesse tempo era território boliviano, Labre chegou a um povoado habitado por umas 200 pessoas e foi introduzido à sua organização social. “Ali, Labre aprendeu que essas pessoas adoravam a Deuses que tinham formas geométricas, talhadas em madeira e que tais efígies se mantinham nos tempos” (Schaan et al, 2010). O pai dos Deuses, também feito de madeira, tinha uma configuração elíptica e se chamava Epimará. Os templos não foram localizados dentro da floresta, mas num espaço aberto redondo, provavelmente um geoglifo (Labre, 1888; Fawcett, 2001; Pessoa, 2017; Ranzi, 2021).

Schaan (2012) desenvolveu as hipóteses de caráter sagrado dos geoglifos, baseadas nas informações de Labre e também devido às diversas formas geométricas dos geoglifos e à ausência quase completa de artefatos cerâmicos e líticos, que normalmente se utilizam na vida diária de um povo. Estes dados de Labre e as observações de campo de que as praças centrais dos geoglifos se mantinham limpas, como se tivessem sido os pisos dos templos, deram a Schaan a convicção para propor, com quase certeza, que os geoglifos serviam como lugares para reuniões, festivais e cerimônias religiosas. Atualmente, é a concepção mais aceita pela maioria dos acadêmicos.

Outro fato interessante é que no Estado do Acre vários templos estavam dedicados ao uso da Ayahuasca, o que leva a imaginar os Geoglifos como espaços para festividades que compartilhavam a proposta de beber esta sagrada bebida milenar e honrar aos deuses da floresta.

Geoglifos

Com o avanço da fronteira agroindustrial e o desmatamento que começou em grande escala nos anos 1970, algumas figuras geométricas retiradas do solo foram notadas pelos pesquisadores do Pronapaba. Mais tarde, desde o ano 2000 adiante, estas figuras, agora chamadas Geoglifos, foram amplamente anunciadas nos meios de comunicação (Ranzi & Aguiar, 2001).

Os Geoglifos são o tipo principal de estruturas de terra que formam a paisagem antropogênica do Acre. São impressionantes devido a sua monumentalidade e geometria perfeitas.”A literatura comumente enfatiza as formas geométricas das estruturas de terra no sudoeste da Amazônia brasileira” (Parssinen et al. 2009).

Essas figuras vêm de várias formas (círculos, quadrados, retângulo, pentágonos, hexágonos, octógonos, figuras simples e também compostas, consistentes em valas e muros de enormes dimensões.

“Imagens geométricas, tais como padrões circulares ou quadrados, ajudam a materializar os não humanos, tais como plantas, animais e ancestrais, proporcionando força e resistência aos grupos de manchineri e aprina” (Virtanen y Saunaluoma, 2017).

Outros geoglifos estão feitos em auto relevos neste tipo de geoglifos o desenho se forma construindo muros contínuos, sem valas.

Estas estruturas de terra são também gravadas obras de arte gravadas no  solo, são desenhos que deram forma à paisagem amazônica. É assombroso que, nesse tempo, estes conceitos provavelmente estiveram na mente do povo amazônico, porque se necessita ciência para dominar a geometria, a qual implica conhecimento científico profundo. Os geoglifos oferecem uma fascinante visão de como vivia o povo do Acre há mais ou menos 2000 anos.

Sob a cobertura da floresta do Acre, como se mostra nas imagens, há estruturas de terras que fascinam os acadêmicos de hoje. Essas estruturas demonstram a habilidade da população autóctone para executar obras monumentais e seus conhecimentos de geometrias, geomorfologia e todo o ambiente circundante.

Embora os geoglifos sejam elementos mais visíveis, a paisagem antrópica do Acre também inclui outras estruturas:

Asentamientos de Montículos

Visíveis nas pastagens artificiais da Amazônia Ocidental, os assentamentos de montículos são outro tipo de estruturas, que sobreviveram a centenas de anos depois de serem abandonados e também caracterizam a paisagem antrópica do Acre.

Sabe-se que nas terras baixas amazônicas existem aldeias com formas circulares. As casas se organizam ao redor de uma praça central. O exemplo mais conhecido são as aldeias circulares comuns do Parque nacional do Xingu, no Brasil (Pessoa et al., 2000).

Seguindo a pesquisa feita por Saunaluoma etc al. (2021), em um sítio arqueológico típico de uma aldeia do Acre, “apresenta 15-25 montículos organizados ao redor de uma área plana circular ou elíptica que cobre, aproximadamente, 2-3 hectares. Os montículos variam entre 10-25 metros em longitude basal máxima e podem alcançar uns 2,5 metros de altura. Normalmente, têm uma forma oval alargada com seu eixo maior orientado para fora do recinto de montículos, com as bordas mais íngremes em direção ao centro da aldeia e desaparecendo gradualmente até o exterior”.

Para estes mesmos autores, os sítios com assentamento de montículos “localizam-se em um terrenos ligeiramente elevado, mas nivelado, a 140-215 metros (sobre o nível do mar) e normalmente se situam próximos a mananciais ou na união duas fontes de água” (Saunaluoma et. al., 2021).

Caminhos

Nos nossos estudos de longo prazo, utilizando imagens de satélite de acesso livre na área da Amazônia Ocidental rica em estruturas da terra, incluindo o Acre, se confirmou a existência de 634 estradas largas e 321 estreitas que se estendem 350 Km longitude total. Originalmente, os caminhos eram retos e, em sua maioria, tinham menos de 500 metros de largura, ainda que alguns se estendiam vários quilômetros. Falavam, principalmente, em áreas com alta densidade de estruturas de terra complexas (que eram mais ricas em caminhos que as simples). Além disso, os caminhos eram um pouco mais comuns na estrutura com forma quadrilateral do que aquelas com formas arredondadas.

Os geoglifos tipicamente incluíam caminhos cerimoniais largos, com larguras iniciais de 15m a 40m (algumas vezes, mais largos) e um estreitamento gradual a partir do extremos.

Os assentamentos de montículos apresentavam caminhos estreitos e curtos apontando em várias direções, provavelmente para o uso cotidiano.

Também incluíam caminhos pequenos mas largos que conduziam a destinos distantes, ocasionalmente abarcando muitas estruturas de terra quando o ponto final era observável: 40% dos caminhos levavam a um ambiente ribeirinho, indicando o acesso; 11% se conectavam a outras estruturas de terra, sugerindo integração, e 50% se acabava em terrenos aberto. Muitos caminhos que partiam desses geoglifos se alinhavam com as direções cardinais, sugerindo que as observações astronômicas tiveram um papel na construção dos recintos cerimoniais com valas. A conclusão foi que os caminhos antigos oferecem perspectivas chave sobre as civilizações passadas e são cruciais para o patrimônio arqueológico da região (Kalliola et al., in press). 

“Essas trilhas foram cuidadosamente construídas; o solo foi removido do seu leito e empilhado nas laterais, formando assim, muros baixos. A remoção do solo mais solto da superfície provavelmente teve a finalidade de limpar a vegetação e prevenir seu crescimento, mantendo os caminhos permanentemente livres para o trânsito de pessoas. As trilhas perfeitamente retas… foram utilizadas para o acesso aos recintos” (Barbosa, 2014).

Como se observou nos estudos desenvolvidos por Sanna Saunaluoma y colegas, “a evidência arqueológica de povos interconectados por redes de caminhos apoia a visão aqui apresentada, de que o movimento terrestre junto das redes de caminhos era o principal modo de transporte humano nas regiões de bacia hidrográficas inter fluvial no Sul da Amazônia. Na verdade, estudos adicionais de detecção remota de amplo alcance podiam revelar que foi o caso junto às terras altas da Bacia Amazônica. Em resumo, ainda que as redes de caminhos do Sul amazônico ocasionalmente podem parecer trilhas simples e não estruturadas, isso não significa que foram menos planejados ou sistematizados (em sua extensão, intenção e funcionalidade) do que os demais sistemas de caminhos antigos sulamericanos, incluindo o icônico Caminho Inca, o Qhapaq Ñan” (Saunaluoma et al, 2021).

Deve notar-se que a Amazônia Ocidental não é uma entidade separada dos Andes; ao contrário, são duas regiões interconectadas por trilhas indígenas, através do qual pessoas, bens e ideias circularam em alturas que vão desde 250 metros a mais de 4 mil metros acima do nível do mar. Considerando a ausência dos animais de carga, tudo devia ser feito com o esforço humano (Parssinen & Ranzi, 2020).

No planalto desértico de Nazca estão as enormes figuras de um macaco (? Ateles), uma aranha (?Mymecium) e um “colibri” (também chamado “beija-flor”). O eco de que essas mesmas figuras sejam comuns e bem conhecidas nas florestas de terras baixas da Amazônia prova que houve um enlace pré-histórico entre essa região e os Andes (Hancock, 2019).

Conclusões

Essas estruturas de terra (geoglifos, caminhos e assentamentos de montículos) são também obras de arte gravadas no solo, obras que deram forma à paisagem amazônica. As imagens, obtidas mediante fotos e a tecnologia lidar, demonstram a habilidade que essas pessoas tinham para executar obras monumentais e de geometria precisa, com conhecimentos de geomorfologia e o domínio de todo o ambiente circundante.

Independentemente dos gregos, necessitou-se de muita ciência para dominar a geometria no meio da Amazônia; os antigos engenheiros aquiry planificaram e levaram a cabo essas obras em um esforço coletivo que sobrevive até hoje. Os geoglifos oferecem uma fascinante visão de como era a vida no Acre há pelo menos 2000.

“As paisagens antropológicos do Acre oferecem um lindo espetáculo a nossos olhos, que contemplam com fascinação o engenho daqueles que viveram aqui muito antes de que esta terra fosse chamada ‘Acre’” (Schaan, 2010).

No Estado do Acre, ao menos nas áreas dos geoglifos (próximo da tríplice fronteira da Bolívia, Brasil e Peru) a presença da Civilização Aquiry transformou a selva amazônica de um ambiente natural imaculado a uma paisagem antrópica e, logo de volta, a um ambiente natural_ ainda que considerado não imaculado.

“A Amazônia Ocidental não foi somente um centro de domesticação de plantas e modificação de paisagem, mas também um centro independente para o desenvolvimento de civilizações tropicais” (Parssinen, 2021).

Os Aquiry, como os Maias da Península de Yucatán, no México (outra civilização florestal americana), decaíram por volta de 800 d.C. Quando os europeus chegaram ao Novo Mundo, só as construções de pedra dos Maias continuaram sendo erguidas enquanto que a Civilização Aquiry já havia parado de construir geoglifos há pelo menos 500 anos (Kalliola et al., 2024; Parssinen et al., in press). Esse legado da Civilização Aquiry claramente demonstra que a região do Acre foi um centro de invenções engenhosas, lugar de uma cultura complexa. Os geoglifos são a evidência mais impressionante que sobreviveu até hoje.

Sob a cobertura florestal do Acre, há milhares de estruturas de terra, tal como mostram as imagens obtidas com o Lidar (Parssinen et al., in press). Tendo em conta essa situação, para preservar os geoglifos será necessário primeiro a floresta. É uma tarefa enorme porque a agroindústria está avançando rapidamente na área florestal, expandindo as pastagens e plantando milho e soja.

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