Conhecida popularmente como “Feiticeira”, a Trigona recursa é uma espécie de abelha nativa encontrada no Acre que desperta curiosidade por relatos de que seu mel teria efeitos alucinógenos. Mas até que ponto isso é verdade?
A questão foi esclarecida pela pesquisadora Gislene Almeida Carvalho-Zilse, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), durante sua participação na 1ª Feira do Mel, realizada no último fim de semana, em Rio Branco. Segundo ela, o tema ainda é cercado por histórias populares e carece de mais estudos científicos.
Na capital acreana, a espécie pode ser observada de perto na Trilha do Mel, localizada no Quixadá, um percurso ecológico que proporciona aos visitantes uma imersão no universo das abelhas nativas sem ferrão.

Sobre o chamado mel de feiticeira, Gislene ressalta que é importante evitar generalizações. Segundo a pesquisadora, não há evidências de que esse mel possua um princípio ativo capaz de provocar os mesmos efeitos em todas as pessoas.
Sua composição química varia de acordo com as espécies vegetais visitadas pelas abelhas e com as condições ambientais do local onde é produzido.
Cada organismo pode reagir de forma diferente ao consumo do mel, dependendo de fatores como metabolismo e estado de saúde. Além disso, os compostos presentes nas plantas utilizadas como fonte de néctar podem influenciar as características do produto final. Por isso, não é possível afirmar que um determinado mel produzirá sempre os mesmos efeitos em todos os consumidores, explica.
A pesquisadora destaca ainda que o mel deve ser compreendido como um produto natural de composição variável, influenciada pela flora disponível e pelas condições ambientais de cada região.
Qualquer efeito percebido precisa ser analisado considerando esses fatores e as particularidades de cada indivíduo, acrescenta.
Espécie pouco estudada
Os ninhos da Trigona recursa costumam ser construídos no subsolo, geralmente entre as raízes de árvores de grande porte que mantêm contato direto com o solo.

Trata-se de uma abelha sem ferrão, de comportamento dócil, coloração predominantemente preta, asas amarronzadas e uma mancha branca na parte frontal da cabeça. Mede entre 8 e 10 milímetros de comprimento e apresenta hábitos generalistas, sendo observada visitando uma grande diversidade de flores.
Pesquisas já demonstraram sua importância como polinizadora de espécies como o açaizeiro, o babaçu e o ipê-de-jardim, desempenhando papel relevante na manutenção da biodiversidade e na produção de frutos. A espécie está distribuída em diferentes estados e regiões do país, evidenciando sua capacidade de adaptação a variados ambientes.
Há também registros de que seu mel era empregado por povos indígenas em rituais e práticas tradicionais, um aspecto que contribui para o imaginário popular em torno da chamada “abelha feiticeira” e reforça sua relevância cultural para comunidades amazônicas.
