Conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do MDIC, em 2025 o estado exportou US$ 5,145 milhões em bovinos vivos, com volume de 1.841.456 kg, destinados majoritariamente à Argélia (69%) e ao Marrocos (31%). Trata-se da primeira vez que o gado vivo aparece na pauta de exportações do Acre desde o início dos registros da Secex, em 1997. Considerando um peso médio de 403 kg por animal, estima-se a exportação de mais de 4.570 bovinos no ano. Embora esse volume seja modesto em termos nacionais, ele é relevante para uma economia pecuária de escala limitada, como a acreana.
Nesse contexto, conforme destaca o Jornal Folha de S. Paulo em edição de 13/01/2026, na coluna “Vaivém das Commodities”, assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, o Brasil registrou uma retomada significativa das exportações de gado vivo em 2025, superando novamente a marca de 1 milhão de cabeças exportadas ao longo do ano — patamar que não era alcançado desde o recorde anterior. Segundo a reportagem, “as exportações de gado vivo voltam a superar 1 milhão de cabeças”, refletindo tanto a recuperação da demanda global quanto o fortalecimento da posição brasileira nesse segmento do comércio exterior. O país alcançou cerca de 24% de participação nas exportações mundiais de bovinos em pé, movimentando receitas superiores a US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,84 bilhões) e registrando um incremento de cerca de 26% em relação a 2024 no volume embarcado.
A matéria destaca ainda que esse desempenho exportador não apenas sinaliza melhora nas condições logísticas e sanitárias, como também reforça o papel do agronegócio nacional na oferta internacional de proteína animal, apesar das críticas de associações de defesa animal e de setores da indústria frigorífica quanto às condições de transporte e ao baixo nível de agregação de valor dessa modalidade de comércio.
Por outro lado, em notícia publicada pelo ac24agro em 14/01/2026, assinada pelo jornalista Itaan Arruda, o Sindicato das Indústrias de Frigoríficos e Matadouros do Acre (Sindcarnes) alertou para um possível desequilíbrio no fornecimento de matéria-prima para o setor industrial de carnes em 2026. De acordo com a entidade, “o Sindicato das Indústrias de Frigoríficos e Matadouros do Acre (Sindcarnes) prevê um déficit de 150 mil cabeças de gado para abate, caso o volume de saída de bovinos permaneça o mesmo registrado pelo Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf) em 2025”.
Essa projeção parte do pressuposto de que o rebanho bovino acreano se manteve praticamente estável, em torno de 5,17 milhões de cabeças no último ano, com taxa de desfrute estimada em 20%. No entanto, o Sindcarnes destaca que o aumento expressivo na transferência de animais para outros estados — especialmente o crescimento de 74,65% das saídas interestaduais em 2025 — pode reduzir de forma significativa a disponibilidade de gado para os frigoríficos locais. A entidade sustenta ainda que, “se não houver, por parte do governo, uma reação justa, dentro do que o mercado está operando, vão faltar cento e cinquenta mil cabeças” para atender à capacidade produtiva prevista, o que pode impactar a produção industrial e a oferta interna de carne no estado.
Portanto, a entrada do Acre, pela primeira vez em 2025, na pauta de exportações brasileiras de bovinos vivos ocorre em um contexto nacional de forte retomada desse mercado e contribui para evidenciar, em escala regional, as preocupações expressas pelos frigoríficos locais.
No plano nacional, conforme destaca a reportagem da Folha de S. Paulo, o Brasil voltou a exportar mais de 1 milhão de cabeças de gado vivo, impulsionado sobretudo pela demanda de países do Norte da África e do Oriente Médio. Esse movimento reforça a atratividade econômica da exportação de animais em pé, que passa a concorrer diretamente com o abastecimento da indústria frigorífica doméstica.
Esse cenário ajuda a compreender e reforçar o alerta feito pelo Sindcarnes, conforme noticiado pelo ac24agro, sobre a previsão de um déficit de cerca de 150 mil bovinos para abate no Acre. A combinação entre o aumento das saídas interestaduais de animais, o início das exportações internacionais de gado vivo e a manutenção de um rebanho relativamente estável pressiona diretamente a oferta de matéria-prima para os frigoríficos locais.
O paralelo entre as duas reportagens revela, portanto, uma tensão estrutural: enquanto a exportação de animais vivos se apresenta como uma alternativa rentável para os produtores, ela reduz a disponibilidade de bovinos para abate no próprio estado, comprometendo a taxa de ocupação da capacidade industrial, a geração de empregos locais e o valor agregado interno da cadeia da carne. No caso do Acre, onde a indústria frigorífica já opera em um ambiente de custos logísticos elevados e mercado restrito, mesmo volumes aparentemente modestos de exportação em pé podem produzir efeitos desproporcionais sobre o equilíbrio do setor.
Em síntese, o Acre passa a reproduzir, em escala regional, o mesmo dilema observado no Brasil: o avanço das exportações de gado vivo fortalece a renda do produtor, mas impõe desafios crescentes à sustentabilidade econômica dos frigoríficos locais, exigindo coordenação de políticas públicas, incentivos adequados e uma estratégia clara para compatibilizar produção, industrialização e comércio exterior.
Diante desse cenário, o Acre precisa avançar na construção de uma estratégia integrada para a pecuária bovina, capaz de conciliar a exportação de gado vivo com o fortalecimento da indústria frigorífica local. Isso exige coordenação entre governo e setor produtivo, com políticas que deem previsibilidade ao mercado, estimulem a industrialização e evitem desequilíbrios na oferta de animais. Sem esse alinhamento, uma oportunidade pontual de renda pode se transformar em perda de valor agregado, empregos e capacidade produtiva no estado.
(Artigo de Orlando Sabino foi extraído do site ac24horas)
