O Estado Empreendedor e os peixes de padaria

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Poucos projetos de fortalecimento da economia regional são tão controversos quanto o “Peixes da Amazônia”. Na acertada ideia de fortalecer a cadeia produtiva do peixe, tudo foi polêmico. Ao menos, nos termos apresentados pelo Governo do Acre à época da execução.

O que, em si, já é um feito. Tornar polêmico e incompreendido o processo produtivo de peixe em uma região como o Acre precisa ter talento. O estímulo à piscicultura deveria encontrar águas calmas por aqui, tamanha a identidade cultural que se tem com o consumo de peixe. Mas não foi o que se viu. Uma estrutura gigantesca, completamente dissociada da realidade com a base produtiva local, foi apresentada como algo “visionário”, sem que se cuidasse de aspectos elementares da produção.

Sobre todo o processo envolvendo a Peixes da Amazônia, o ex-presidente da Agência de Negócios do Acre (Anac) e ex-presidente da Peixes da Amazônia, Inácio Moreira, revelou alguns detalhes que ainda não haviam sido ditos de forma tão clara publicamente. Em entrevista ao site *_ac24agro_*, pontuou, por exemplo, que um erro de escopo do projeto consumiu parte do capital de giro da empresa: não se observou a estrutura de energia elétrica necessária para sustentar aquela unidade composta por um Centro de Alevinagem, uma fábrica de ração, frigorífico e tanques de matrizes. Isso custou muito caro.

Outro detalhe que Moreira disse já havia sido discutido aqui neste espaço: o Governo do Acre não errou sozinho. O ex-presidente da Anac disse isso com todas as letras. E ainda nominou alguns atores importantes na cena administrativa do Complexo de Piscicultura da Peixes da Amazônia.

O manejo de água para a produção de proteína, com baixa emissão de gás carbônico era o que se pretendia ali. Quanto custou? Não é uma resposta simples. O próprio ex-presidente da Peixes da Amazônia lembra que, à época, o Complexo de Piscicultura custou R$ 68 milhões. Contando outros gastos, ele admitiu a cifra chegar a mais de R$ 90 milhões. Há quem contabilize esses números como conservadores. O valor nominal não abarca o prejuízo que o Estado e os investidores privados tiveram. Há quem arrisque R$ 200 milhões, levando em conta a inflação do período.

Tendo essas cifras como referência, o arremate do Complexo de Piscicultura na última sexta-feira (28) por míseros R$ 13,1 milhões mostra como a mania de grandeza em terra com pouco pirão sai cara para a mesa do povo. A OZ Earth, grupo que arrematou a Peixes da Amazônia em leilão autorizado pela Justiça, terá que ser clara sobre os rumos que dará ao empreendimento. Até agora, as dúvidas são muitas.

Uma delas é: qual a segurança de que a OZ Earth vai manter o empreendimento aqui? A esperança de que “agora vai” pode ser alimentada? Mas como? A estrutura de piscicultura em todo o Acre se não é a mesma, piorou; o capital de giro das propriedades privadas ligadas à piscicultura do Acre se não é o mesmo, piorou; a infraestrutura rodoviária para escoamento da produção de peixes no Acre se não é a mesma, piorou.

Lembrando que, segundo o próprio ex-presidente da Anac, a empresa que hoje arrematou a Peixes da Amazônia foi uma das que o Governo do Acre apresentou à época o projeto para que ela aportasse recursos. Era o que o projeto precisava desesperadamente. O que não foi feito.

Há um outro desafio que este espaço já adianta para os empresários da OZ Earth: a credibilidade do projeto virou lama. Encontrar produtor (grande ou pequeno) disposto a renovar esperanças naquela ideia não será fácil. Este site diz tudo isto em tom de lamento. Tem-se a exata dimensão de que, no Acre, o Estado ainda tem, sim, a função de induzir, de fomentar, de conduzir os rumos da economia. Caso se deixe tudo em função da iniciativa privada, por aqui, será o caos. É assim e ainda será assim. Com um adendo: caso a OZ Earth seja eficaz na condução dos negócios, não será possível à iniciativa privada acreana dizer: “Tá vendo! o Estado não tem que se meter nisso!”. A iniciativa privada daqui está desautorizada a fazer essa afirmação: conduziu, junto com o Estado, um projeto que não deu certo.

Daí o lamento grave em torno dos equívocos do projeto Peixes da Amazônia. É necessário que se tenha dimensão de que uma empresa não nasce gigante. Ela precisa crescer respeitando a realidade econômica local. É preciso que a produção demande a indústria. E não o contrário.

Do Centro de Alevinagem da época de Geraldo Mesquita à Peixes da Amazônia, foram aproximadamente 35 anos. À época do Barão, brincava-se que seria tanto peixe que o acreano comeria que, ao comprar pão nas padarias, o consumidor ganharia um peixe de brinde. Era a anedota da época. Deu no que deu. A Peixes da Amazônia fez muita gente acreditar novamente que produzir peixe em cativeiro por aqui seria viável. Deu no que deu.

Em tempo: uma informação aos empresários da OZ Earth. Atentem para o Igarapé Iquiri. Ele costuma se rebelar. Pode colocar tudo por água abaixo. De novo.

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