O Igarapé São Francisco, um dos principais cursos d’água urbanos de Rio Branco, vive uma situação crítica e pode estar próximo de um colapso ambiental. A avaliação é da líder do Programa de Áreas Protegidas e Conservação da Biodiversidade da SOS Amazônia, Daniela Dias, que aponta falhas históricas na gestão dos recursos hídricos, ausência de políticas públicas integradas e negligência com as comunidades em situação de vulnerabilidade que vivem às margens do igarapé.
Segundo Daniela, o São Francisco “não desapareceu, mas tenta sobreviver”. Para ela, a degradação é resultado direto da falta de uma meta clara por parte do poder público para a gestão do igarapé, somada a um processo histórico de ocupação urbana desordenada. “Rio Branco se desenvolveu com as pessoas construindo suas vidas às margens dos rios. Quem teve condições de sair para áreas mais seguras saiu, mas nem todos tiveram essa possibilidade”, explica.

A especialista destaca que a ocupação das margens do igarapé está fortemente associada à vulnerabilidade social. Em situações extremas, como enchentes, as desigualdades ficam evidentes. “Pessoas de classe média conseguem sair rapidamente, ir para um apartamento. Já quem vive em situação de vulnerabilidade não tem essa alternativa”, afirma.
Daniela critica a dificuldade do poder público em dialogar diretamente com essas comunidades. Para ela, as ações acabam se restringindo a discursos técnicos voltados a quem já tem consciência ambiental, sem alcançar quem vive o problema diariamente. “É como pregar para quem já está convertido”, resume.
Além dos impactos socioambientais, Daniela chama atenção para problemas estruturais, como deslizamentos de terra, desbarrancamentos, perda de quintais e retirada da mata ciliar, considerada essencial para a estabilidade das margens e a qualidade da água. O igarapé também sofre com o despejo constante de lixo e esgoto.

Outro ponto sensível levantado pela líder da SOS Amazônia é a falta de transparência sobre recursos destinados à revitalização do Igarapé São Francisco. Ela lembra que, entre 2021 e 2022, foi anunciado um fundo que teria reunido cerca de R$ 50 milhões para ações de recuperação. “Onde está esse dinheiro? Ninguém sabe. O igarapé continua na mesma situação”, questiona.
Sobre a retirada de famílias das áreas de risco, Daniela alerta que a simples remoção, sem uma política habitacional estruturada, tende ao fracasso. “Não adianta retirar as pessoas sem garantir condições adequadas de moradia. Se isso não acontecer, elas acabam voltando, porque ali também é um território de trabalho e proximidade com o centro”, afirma.

Para ela, a solução passa por uma articulação real entre políticas ambientais, de saúde, urbanização e assistência social, além de uma comunicação mais estratégica, que relacione a preservação do igarapé à crise hídrica e à qualidade de vida da população. “O Igarapé São Francisco influencia diretamente 16 a 17 bairros da capital. Proteger esse curso d’água é uma questão coletiva”, conclui.
